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afro Lourdes Reis


Nascida em Nova Soure, Bahia.
Professora, pedagoga e psicopedagoga.

Livros publicados:
"Caminhos" - poesia - 1982.
"Sonhando com Jesus no caminho das estrelas" - Literatura Infantil - 1994.

Participou de duas coletâneas:
A magia de um corpo cristalino, Verso reverso.


Odisséia Negra

Naqueles tempos já passados,
de glórias... na terra natal,
onde foste rei, príncipe e senhor,
foste também vítima de amarga e cruel violência!

Arrancado aos teus haveres,
amores, sonhos e esperanças,
jogado e maltratado,
eras naquela trajetória infamante,
a marca da dor, da tragédia!

E aquela saudade, que a dor dıalma vertia,
expressada no canto apaixonado e triste,
vibrava na atmosfera do oceano,
a recolher as tuas lágrimas pungentes!

Lembravas, naqueles porões imundos,
o suor a escorrer pelo corpo inteiro,
o aconchego do lar, as carícias da esposa,
amante e namorada!...

Pisando o solo brasileiro, 
acorrentado, cansado, debilitado,
puseram-te o selo de escravo, 
foste proibido de ser gente,
de amar e ser feliz!

Os teus lamentos, gritos lancinantes,
manchavam de dor e vergonha as terras do Brasil!

A tua alegria de antanho ali se fez melancolia!
O teu olhar ardente,
ali se tornou banzeiro, apático, distante,
olhando a vida pregressa!

A ti, tudo foi proibido:
ler, escrever, possuir, querer...
Se paravas obediente,
te ofertavam humilhação.
Se gritavas o orgulho de tua raça,
eras acorrentado!

E os teus ecos doloridos,
que brotavam do peito arfante,
feriam os ouvidos do mundo,
levavam além, muito além mar,
campos e florestas e céus... a tua dor!

E o sangue escorrendo do teu ventre,
do dorso em chagas transformado,
na mistura patética de vergonha e impotência,
manchava a terra que aviltada e triste,
recolhia os teus dissabores, 
e aplacava os teus gemidos!

E o senhor de vasta cabeleira, 
olhar felino, gestos prepotentes, 
pele macia, delicadamente alva, 
impecavelmente trajado,
exibindo os seus brasões,
consumindo o tabaco inglês
a gostosas baforadas... sorria zombeteiro,
agitando a bengala de ouro:
³Negro, infeliz, animal imundo²!

E as raparigas, alvas de olhos azuis,
nos seus trajes parisienses,
formosas no desabrochar da juventude;
desfilando a graça e a beleza;
entre o roseiral magnificamente trajado
de cores aveludadas,
agitavam leques e sombrinhas,
tagarelando e rodopiando
felizes, encantando a vida!

Nem sequer um olhar a ti ofertado...
Que jazia, quase morto, esfolado,
dependurado no tronco infamante!

Mas alguém de olhar sereno, lábios trêmulos,
apartando-se do grupo, olhando-te compadecida...
Deixa escapar dos belos olhos,
pequenos pedaços de céu, uma lágrima furtiva...
Que como gota de orvalho de manhãs primaveris,
qual diamante pela mão do artista modelado,
reflete na face rúbida, as cores do arco-iris!

E o teu semblante,
aconchegado pela carícia inocente, transfigura-se!
Refletindo no olhar de ébano,
misturado de pranto e emoção... toda felicidade,

que o mais infeliz dos desgraçados pode sentir,
ante a visão deslumbrante do amor!
Amor que não tem cor, mas a cor do universo!
Não tem barreiras, mas a bandeira da esperança!

E o beijo quente oferta-te a lágrima cristalina
que um olhar de menina deixara escapar
num momento de piedade e sonho...

E esvoaçante, feliz,
alças vôo rumo à liberdade, 
enquanto fica o teu corpo inerte
preso ao tronco, amortalhado,
chagando a humanidade!

E a tua senhorinha pede a Deus por ti,
pelos teus rebentos,
pelo mundo que te libertou sob o signo da dor...
Armando-se de pavor, espalhando contra tua gente
que canta dolente e ferida... a tua partida!

Jovens e já possuídos do ideal do bem,
espíritos de escol...
Lutavam contra a cruel escravidão
que sobre tua cabeça pesou!
Não estavas só...
O verbo e a pena dos buscadores da justiça
a teu favor bradaram!
E o condoreiro do amor (Castro Alves)
vibrante e impetuoso por ti clama aos céus,
denunciando o teu infortúnio!

E o tempo passou...
Ainda os teus rebentos,
depois de muitos contratempos e a corte reunida,
nascem livres, livres e pobres,
livres do chicote, talvez... 
Mas escravos da miséria e da ignorância!

E o tempo passou novamente...
A tua gente cresceu ignorante e sofrida...
E eis que sexagenário,
velho inútil, traste incômodo,
reduz a receita do rico senhor,
ocupa-lhes os cômodos...

E um dia... reunida a corte... alforria!
Choras de alegria... mas os teus anos pesam.
És livre! E tiraram-te tudo:
o leito, a migalha de pão e água...
E até hoje é comemorada a tua alforria!

Até que um dia, todos livres...
A princesa Isabel,
que a letra da história imortalizou,
assina a tua liberdade...
E os elegantes senhores mais ricos e opulentos,
estudam na Europa, dançam pelos salões
deslumbrantes da corte...
E tu, ³negro imundo²... continuas pobre!

Mas mesmo assim, aparece a estrela brilhante
do José do Patrocínio
e penetra galante os salões da nobreza!
E o Teófilo de Jesus revela ao mundo,
a beleza latente de tua arte!
E no universo das letras fulgura,
De Cruz e Souza a inspiração singular!

Heroísmo, nobreza, inteligência... sepultados...
Crime nefando que a Natureza assistiu!

Liberto da corrente,
dos leilões e do mercado infamante,
negado a ti, foi, com tamanha força,
a dignidade, o respeito à tua condição humana!
E ostentando a alcunha do ³homem livre²,
voltaste às garras da dominação, 
fremido pela fome, sede e cansaço!

Inda hoje há quase um século passado,
o preconceito injusto pesa sobre tua cabeça, 
esmagando, enxovalhando o teu viver!

E a ti eu vejo
com o pensar repleto de vergonha,
pelo que em ti foi consumado, 
pelo drama que a história revela, 
e a injustiça que o presente prolifera,
uma criatura de Deus...
Somos todos irmãos de origem e finalidade!
Espíritos andantes do cósmico! Filhos da luz!

Lourdes Reis 1983
Poema publicado no livro "A magia de um corpo cristalino".

O GRANDE MOMENTO


Quem poderá deter o pensamento,
Quando ele voa para largos horizontes!
Quem deterá o Espírito, 
Quando ele se liberta
A cantar seus sonhos palpitantes!

Que nasceram bem fundo, 
No abismo mais profundo,
De um ser que desperta, perdido,
De ânsias, e glórias, e desejos doridos,
No calor de seus anseios mais queridos!

Vai, anda, leva teus passos
Onde te querem os teus sonhos,
Rodopiando pelo jardim da liberdade,
Colhendo as flores da saudade,
Num misto de paz e agonia!

Terás também o perfume da alegria,
No verde resplandecente do teu sonhar...
Das luzes inebriantes do teu querer,
Surgirá o momento para amar,
No infinito do teu viver!

Lourdes Reis 
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