afro
afro Oliveira Silveira

Gaucho de Rosario do Sul. Nascido em 1941. Professor, conferencista,
político. 10 livros publicados, dentre eles Banzo Saudade Negra. 1965;


PELO ESCURO
(fragmentos)

Sou a palavra cacimba
prá sede de todo mundo
e tenho assim minha alma
água limpa e céu no fundo.

Meu canto é faca de charque
voltada contra o feitor
dizendo que minha carne
não é de nenhum senhor.

Sou quicumbi e moçambique
no compasso do tambor.
Sou um toque de batuque
em casa de gege-nagô.

Sou a bombacha de santo,
sou o churrasco de Ogum.
Entre os filhos desta terra
naturalmente sou um.
(...)

No sul o negro charqueou
lavrou
carreteou
no sul o negro remou
teceu
o diabo a quatro
o negro no sul congou
bumbou
batucou
a negra no sul cozinhou
lavou
diabo a quatro
no sul o negro brigou
guerreou
se libertou
quer dizer: ainda se liberta
de mil disfarçadas senzalas
prisžes
diabo a quatro
onde tentam mantê-lo agrilhoado
(...)
Muito obrigado
pelo ditado
"negro em posição
É encrenca no galpão".
Obrigado pelo preconceito
com que até hoje me aceitas.
Muito obrigado pela cor do emprego
que não me dás porque sou negro...
(...)
Um naco de fumo escuro
negrinho
da tua cor, no monturo
Um toco de pito aceso
negrinho
cor de teu sangue indefeso
(...)
E peço: clareia o rumo
negrinho
de teus irmãos cor de fumo.
(...)
Já fui a palavra canga
sou hoje a palavra basta.

[De La Poesia Negra nel Modernismo
Brasiliano, de Benedita Gouveia Damasceno.
Palermo: Ila-Palma, 1988.]



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