afro
afro Oswaldo de Camargo
Poeta paulista. Nasceu em Bragança Paulista em 1936,
filho de apanhadores de café. Na adolescência foi seminarista.
Também músico, jornalista e romancista. Autor de extensa obra,
entre poesia, prosa de ficção, antologias, artigos. Alguns títulos:
Um Homem Tenta Ser Anjo, 1959; 15 Poemas Negros, 1961;
O Carro do xito, 1964.
AUTO RETRATO

Ver-me assim é ver num campo aberto
um cimo verde, um horizonte azul,
e uma alma em meu vergel interno,
a qual eu pastoreio e alimento.
Gosto de olhar minha revolta alma
aqui deste rochedo em que me assento...
Tenho um riacho também que me tortura,
bucólico e terno...
Às vezes, ao voltar do meu rochedo,
após um dia todo de labor,
lavo o rosto em sua água e torno-me
amável e sonhador...
A alma que alimento e pastoreio
passeia em minha face juvenil
nos dias de excursão, paisagens outras,
cansada deste pífaro que toco
aqui neste rochedo em que me assento...

Mas sou o quê? A vida aberta,
se a meus lábios leva alimento,
conduz também até meu pasto interno
amorfas caravanas do não-ser...

E, além do vento que me esperta, venho
o gesto erguer, filtrando o teu alento,
Ó vale e calmo ar!
Moço na face, esse costume antigo
de em rocha estar sentado me enternece
pelo amor
com que faço meu ser não me enfadar...
Tornei-me escadaria de mim mesmo...
Degraus de abatimento! Vou a esmo...

III

Longe do que já fui, me vou tal qual
fio d'água caindo da montanha...
A paisagem é tão outra, até os seixos
já têm a posição de areia leve
que o vento fez mudar. Isso me estranha
o pensamento, nervo absoluto
do frouxo maquinismo em que ambulo.
Eu moço partirei, a face obscura,
não mais paisagística de mim, dispersa-se.
Eu moço partirei hoje no rumo
do que não sei e volto a qualquer fábula
o rosto estreito e frágil em que sumo
um pensamento de ouro em corpo escuro...

VII

Agora já não sou aquele aceno
de bandeira em dia engalanado...
Já não posso dizer: "Estou contente,
pássaro, sou o teu par!"
Hoje eu já não sou alegre, nem sereno,
mas conheço a losna em minha chávena...
Espero que a morte não me aguarde,
posso ainda sofrer!
Hoje eu já não sou alegre, nem sereno,
nem estou a morrer...
Mas sei que meu grito perpetua
a cor da rosa rubra e faz-me lâmina
a vibrar entre o amor de que me nutro
e tua vida que eu sonhara minha!

XIX

Não me lanço, amor, sobre esse asfalto,
porque tenho uma rosa na mão, maravilhosa!
E ela é tão minha e nunca olhou a nuvem,
nem o veludo qual chama do amaranto...
Š uma rosa sem vale, nem jardim,
e eu a devo salvar, seja com pranto,
seja com sal ou cilícios ou amargor...
Não me lanço, amor, sobre esse asfalto,
porque tenho uma rosa na mão, tão carmesim...
E eu a devo salvar seja a custo
de abandonar neste chão minha amargura
e essas horas de cinza, mas nunca a vida...
Minha vida por esta rosa!

XXXIII

Quero a estrela mais alta,
a que desconheço!
Não mais Sírio, prefiro
a estrela inconcebida!
Quero a estrela profunda
no ausente do céu perdida...
Quero apanhar essa estrela,
cabelos de fogo ardendo
e a face de labareda...
quero a estrela mais alta,
mais igual à minha vida,
a que desconheço...

XLII

Essa mesa foi feita de aroeira
que minha avó plantou, percebo ainda
gritos como o do vento em suas pernas,
vejo a fragilidade no seu dorso...
Essa mesa tem a alma cor de aroeira...
Pássaros já extintos procuram
em regiões distantes essa mesa...
Abelhas (ai, bem sei!) relembram tanto
o pólen que decerto está intacto
nessa mesa; insetos talvez, que desespero!
perfuram só granito e pedem a mesa!
Mas essa mesa foi feita de aroeira
que minha avó plantou, enfim desvendo
que coisas suas também procuram a mesa...
Algo como a saudade de encontros,
quando verde era a manhã e muito antes
de esta sala, sombra, e mesa inerte!

De Um Homem Tenta Ser Anjo. São Paulo, 1959


O SAUDOSO GUARDADOR
DAS RESES

Bem sei que o moço corpo nesta sala
É parte de objetos: mesa, vaso,
cadeiras e a estante de verniz...
E a cidade cerca o véo fundo
do pensamento livre destes ciscos...
Às vezes largo a pressa e o olho baço
percorre a extensão da pele enxuta,
e julgo ali rever o amado sítio
hoje pousado sobre relembranças...
Nas tardes, se vou só, prossigo a luta
para o retorno àquele tempo, idade
inusitada em terras desse nunca-
mais. Contudo em minha pele
tento criar, há muito tempo, um boi...
Bem sei que o moço corpo nesta sala
É parte de objetos: mesa, vaso,
cadeiras e a estante de verniz...
Porém, vos digo: o gado me persegue
até agora e eu cheiro o seu estrume,
só o detém aqui os edifícios,
que os homens erguem contra o bucolismo...
À noite, durmo um nada, suportando
berros de cabras no palheiro d'alma...

De Quinze Poemas Negros, São Paulo, 1961.

EM MAIO

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça,
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
"Outrora, nas senzalas, os senhores..."
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
É uma senhora esquálida, seca, desvalida
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
e se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: "² bendita Liberdade!"
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

Publicado em O Estado de S. Paulo, 25-1-1987, Cad. 2, p. 5.



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