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BEM BRASILEIRO COM ALGUNS SOTAQUES - GAUDENCIO THIAGO DE MELLO     
Resenha por José Domingos Raffaelli    
 
 
 
 
 

     A famosa máxima de que "a saída para o músico brasileiro é o Aeroporto do Galeão", de Maurício Einhorn, mas erroneamente atribuída a Tom Jobim, foi a válvula de escape para a carreira de inúmeros instrumentistas. No caso do compositor, arranjador, pianista, violonista e multi-instrumentista Gaudencio Thiago de Mello foi diferente. Ele utilizou a porta de saída do Galeão, porém o motivo de sua ida para New York, em 1966, foi para afastar-se dos tempos funestos da ditadura militar. Ele aproveitou a oportunidade para trabalhar como técnico de futebol, função que também exerceu em nosso país. A música ­ sua verdadeira vocação - veio depois, exercitando seu enorme talento para plantar uma semente duradoura que desenvolveu suas aptidões em diversos contextos. Radicado nos Estados Unidos há quatro décadas, nunca esqueceu suas origens, mantendo-se fiel à essência da nossa música. O CD "Bem Brasileiro ­ com alguns sotaques", lançado pela Ethos Brasil, enseja um contato mais estreito com a música de Gaudencio, cujas composições preservam as raízes brasileiras, mas também englobam spirituals e até o jazz funky dos anos 50, reflexo da sua experiência nos Estados Unidos.

Com significativa discografia, Gaudencio é um músico realizado aqui e no exterior. Ele trilhou novos caminhos e foi devidamente reconhecido nos Estados Unidos por sua arte, como ocorreu com Laurindo Almeida, Luiz Bonfá, Bola Sete, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, João Donato, Dom Salvador, Cláudio Roditi, Airto Moreira e mais tarde com Romero Lubambo, Duduka da Fonseca, Hélio Alves, Nilson Matta e Eliane Elias. Logo ficou conhecido e liderou sua banda, compôs trilhas para teatro e cinema, lecionou em renomadas escolas de música, tocou e gravou com músicos de renome internacional. Além do seu talento de compositor e arranjador, despertou a atenção dos americanos pela incrível variedade de instrumentos que criou, batizados por ele de "percussão orgânica", alguns dos quais receberam nomes curiosos como triplo ingá, boca-de-barro, boca-do-mato, surdo-de-boca, cuíca-de-boca, pau-de-chuva, além de uma infindável série de apetrechos dos quais extrai os mais variados sons que surpreendem a grande maioria dos percussionistas e músicos de todo mundo.

Para este lançamento Gaudencio selecionou um verdadeiro dream team, um who's who dos músicos em atividade raramente reunido em nossos estúdios: Mauro Senise, Carlos Malta, Zé Carlos Bigorna e o francês Idriss Boudrioua (saxofone alto) Paulo Moura e Paulo Sérgio Santos (clarinete), Roberto Marques (trombone), NiIton Rodrigues (trompete e flugelhorn), Hamilton de Holanda (bandolim), Antonio Mello e Rogério Caetano (violão), Haroldo Mauro Jr., Kiko Continentino, Hamleto Stamato, Delia Fischer e o americano Cliff Korman (piano), Paulo Russo, Tony Botelho e Adriano Giffoni (baixo), César Machado, Marcio Bahia e Claudio Infante (bateria). Cabe registrar a contribuição do co-produtor e guitarrista Flavio Goulart, cuja vivência contabilizou vários anos em Paris tocando e gravando com grandes músicos europeus. Já imaginaram todas essas feras reunidas no mesmo palco? Estranhamos não constar qualquer informação sobre a(s) data(s) de gravação deste projeto no texto do encarte ou na ficha técnica.

O repertório de "Bem Brasileiro ­ com alguns sotaques" oferece 14 composições de Gaudêncio com variada gama de estilos brasileiros, além de spirituals e jazz funky. Sua música repleta de imaginação e organização abriga material com forma, estrutura e organização. Os arranjos para os sopros de "Brother give me a hand" e Show me the way", influenciados pelos spirituals das igrejas batistas americanas, são de Joel Barbosa; "Easy riding" e "Um abraço no Randall" são de Liew Matthews. De um modo geral, as performances são inspiradas e os arranjos engenhosos aproveitam inteligentemente a instrumentação das variadas formações entre sexteto e noneto. Com músicos e solistas experientes, o resultado final é uma amálgama que preserva a vitalidade da arte de Gaudencio. Um ponto de importância capital é que, ao contrário da grande maioria dos percussionistas - que quase sempre se estendem ad infinitum em inconseqüentes, inócuas, repetitivas, cansativas e intermináveis batucadas -, mesmo sendo líder Gaudencio mantém-se num segundo plano, unicamente dedicado a contribuir com seus acompanhamentos para a música dos seus conjuntos.

A faixa-título, um samba em andamento médio cujas harmonias favorecem a improvisação, exposta por Zé Carlos Bigorna com bom gosto e elegância de estilo, abriga solos expressivos de Flavio Goulart (com acordes e oitavas à la Wes Montgomery), Haroldo Mauro Jr. e Paulo Russo.

"Tudo azul", outro samba, porém em andamento médio-rápido, é favorecido pelas presenças de Nilton Rodrigues e Roberto Marques, dois ícones em seus respectivos instrumentos; Nilton toca com extroversão e convicção, e Roberto modela sua intervenção com a categoria habitual. Haroldo e Russo contribuem com breves, mas instigantes solos.

"Ventos do sertão", a mais longa das faixas, a nosso ver é uma obra-prima. Após a abertura de percussão por Gaudencio, Cliff Korman estabelece o clima da música de igreja expondo a bela melodia com alto grau de lirismo. Sucedem-se os solos, todos integrados nessa atmosfera; o de Carlos Malta (sax-alto), por vezes veemente, reforça o espírito evangélico da peça, evocando em alguns momentos Eddie Vinson, Hank Crawford e Frank Strozier. Flavio comprova que seu trabalho como produtor não diminuiu sua criatividade de improvisador, cujo solo é sublinhado pelo acompanhamento tipicamente negróide de Cliff Korman, que, por sua vez, tem uma intervenção repleta de genuína emoção.

O mesmo vale para "Brother give me a hand", outro tema influenciado pela música de igreja, com soberbo arranjo para os sopros (Idriss-Nilton-Roberto-Malta, este utilizando saxes alto, tenor e barítono) dando maior colorido aos uníssonos. Idriss Boudrioua (sax-alto), Nilton, Roberto, Flavio e Cliff são sustentados ao longo dos seus solos pela polirritmia incessante de Cláudio Infante, totalmente enquadrado ao ritmo que ouvimos nos ofícios religiosos das igrejas batistas.

"Show me the way", uma obra bluesy que faz parte da trilogia influenciada pelas canções religiosas, também tem um arranjo elaborado para os sopros, com solos bem construídos de Nilton,.Flavio e Cliff Korman; este evidencia estar familiarizado com a música das igrejas batistas.

O virtuoso clarinetista Paulo Moura, um expoente da nossa constelação de astros, e Hamilton de Holanda, uma das gratas revelações dos últimos tempos, revezam-se alegremente na exposição do choro "O presidente", em andamento médio, extraindo sua beleza melódica com arabescos e floreios engenhosamente alinhavados, precedendo o desenvolvimento das suas idéias em solo. Adriano Giffoni toca o baixo elétrico, uma raridade nos conjuntos de choro, o que sempre causa revolta nos puristas de plantão. O final da faixa surpreende o ouvinte ao se transformar em samba.

O baterista Marcio Bahia inicia "Tem xodó no meu xaxado", cujo título indica seu estilo. Sem perder as características rítmicas do xaxado, é uma interessante adaptação de uma linguagem mais moderna para esse popular ritmo nordestino. Os solistas são Carlos Malta (flauta), Delia e Giffoni.

O samba "Saltimbanco" é uma alegre excursão pelo mais popular dos ritmos brasileiros, tendo contribuições efetivas de Senise (em grande forma na flauta), Haroldo, Flavio e Paulo Russo.

Por alguma razão, o arranjo dos sopros para a exposição de "Easy riding" lembra-nos o som coletivo do Sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes. Movimentado e repleto de bons momentos, tem contribuições individuais de Nilton (flugelhorn), Tony Botelho e Carlos Malta (flauta, à la James Moody).

A inspiração da reverente "Fique mais um pouco" nasceu quando o irmão de Gaudencio - o poeta Thiago de Mello - passou por momentos muito difíceis. Seus aspectos mais emotivos são o lirismo, a continuidade melódica e o acentuado feeling, enriquecidos pelas intervenções de Senise (flauta), Hamleto e Flavio, complementados pelo baixo de Paulo Russo.

Paulo Sérgio Santos é o destaque de "Chorando e sambando", deixando impressa sua marca de clarinetista virtuoso, cuja maestria, sonoridade e afinação irrepreensíveis afloram em todos os momentos. Roberto Marques, Delia Fischer e Antonio Mello (violão) também marcam presença.

"Taking my place in time" possui tintas do nordestino baião, com primoroso trabalho de Marcio Bahia e Gaudencio, cabendo as improvisações a Paulo Sérgio, Flavio e Hamleto.

Nilton (flugelhorn), Flavio e Haroldo, solistas experientes, de bom gosto e inspirados, moldam suas concepções ao desenvolvimento de "Missing home".

O samba "Um abraço no Randall" encerra a programação deste sugestivo lançamento. Sua sonoridade coletiva é o resultado do adequado blending da linha de frente formada por Nilton, Roberto e Malta (flautas, saxes alto, tenor e barítono) idealizado por Liew Matthews.

"Bem brasileiro ­ com alguns sotaques" é outro triunfo artístico de Gaudencio Thiago de Mello

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BEM BRASILEIRO - COM ALGUNS SOTAQUES
Thiago de Mello

Ethos Brasil, 2006

1-Bem brasileiro
2-Tudo azul
3-Ventos do sertão
4-O presidente
5-Brother, Give Me A hand
6-Tem xodó no meu xaxado
7-Saltimbanco
8-Easy Riding
9-Fique mais um pouco
10-Chorando e sambando
11-Show Me the Way
12-Taking My Place In Time
13-Missing Home
14-Um abraço no Randall


All songs written by Thiago de Mello

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