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O INSTITUTO VILLA-LOBOS E A MÚSICA POPULAR

Ricardo Ventura


HISTÓRICO DA UNIVERSIDADE

A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, tem origem na antiga Federação da Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara - FEFIEG, criada pelo Decreto-lei 773 de 20 de Agosto de 1969 como Fundação de Direito Público para o desenvolvimento da educação superior e da pesquisa. Seu primeiro presidente foi Alberto Soares de Meirelles, sendo sucedido em 1974 por José Maria B. de Paiva. Com a mudança do nome do estado em 1975, a fundação passa a se denominar FEFIERJ, assumindo a sua presidência o professor e escritor Guilherme de Figueiredo. Em 5 de Junho de 1979 a FEFIERJ é convertida em universidade (decreto-lei nº 6.655) e seu nome passa a Universidade do Rio de Janeiro (UNI-RIO) e Guilherme de Figueiredo é nomeado Reitor.

Atualmente a UNIRIO é composta por cinco centros acadêmicos: CCJP (Centro de Ciências Jurídicas e Políticas), CCH (Centro de Ciências Humana), CCET (Centro de Ciência e Tecnologia), CCBS (Centro de Ciências Biológicas e da Saúde) e o CLA (Centro de Letras e Artes).

O CLA é composto por duas faculdades: o Instituto Villa-Lobos (IVL) e a Escola de Teatro (ET). A primeira com origem no antigo Conservatório Nacional de Canto Orfeônico (CNCO) - 1942, fundado por Villa-Lobos e a segunda, proveniente do Conservatório Nacional de Teatro (CNT), antigo Curso Prático de Teatro (CPT) - 1937.

Tudo o que se refere à música e teatro na UNIRIO passa, necessariamente, pela história do CNCO e do CPT/CNT, que em meados década de 60 foram transferidos para um antigo casarão à Praia do Flamengo 132, conhecido na época como "O Prédio da UNE". Hoje, embora demolido, permanece vivo como um símbolo de vanguarda e luta, sendo sempre lembrado como pólo onde movimentos sociais, artísticos e políticos tiveram expressão. A importância deste prédio é tão grande para os artistas, que a revista ENSAIO (1980) dedicou a edição nº 3 exclusivamente a este imóvel. Em 1999, o prof. José Dias também dedicava ao prédio um capitulo em sua tese de doutorado e Jana Eiras Castanheira, sob a orientação da profª Tânia Brandão, publicava em 2003, uma dissertação de mestrado sobre as origens da Escola de Teatro da UNIRIO. Tanto Dias como Jana, registraram com riqueza de detalhes o clima que existia no "Praia do Flamengo 132". No entanto, o que existe hoje naquele local é um grande estacionamento. Demoliram um símbolo, mas o seu espírito continua edificado na memória daqueles que tiveram o privilégio de terem experimentado um significativo momento de suas vidas lá.

A música popular praticada no IVL passa, necessariamente, por quatro fases: o que foi a Educação Musical no Brasil a partir da década de 30, a historia do "Praia do Flamengo 132", o processo de instalação do IVL e da ET no prédio e o IVL a partir da década de 70.

CONSERVATÓRIO NACIONAL DE CANTO ORFEÔNICO - CNCO

O CNCO foi instituído pelo Decreto-lei nº 4993 de 26 de Novembro de 1942. A escola, idealizada por Villa-Lobos, teve o apoio do Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema. Na seqüência do projeto veio a implantação, em caráter obrigatório, do Canto Orfeônico nas escolas. Villa-Lobos já liderava grandes manifestações cívicas, utilizando grupos corais que eram denominados Orfeons. Contava com a colaboração de professores de música que eram encarregados da preparação dos alunos das escolas primárias e secundárias para as diversas festas cívicas que constituíam o principal espetáculo do governo de Getúlio Vargas. Eram milhares de crianças uniformizadas, executando gestos sincronizados, cantando de forma afinada e conduzidas pelo grande maestro. Uma verdadeira demonstração de civismo à moda alemã do Terceiro Reich. Desta forma, o CNCO pretendia uma educação musical introdutória, sem maiores aprofundamentos e cujos objetivos populistas e demagógicos eram flagrantes. Em depoimento à revista ENSAIO, o prof. José Maria Neves (profº do IVL e Diretor posteriormente) destaca:

"... A própria História da Educação Musical no Brasil é contada na evolução destes Cursos em seus quase quarenta anos de vida. Tudo começa nos anos trinta, quando aparecem, inicialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, as primeiras tentativas de realização de atividades musicais com escolares, particularmente através da formação de grupos corais .... Dentro dessa fase, entretanto, o Rio de janeiro logo tomaria a dianteira, tornando-se o pólo centralizador do qual emanava a orientação para as atividades desenvolvidas em todas as regiões do país... Para estas concentrações, escolhia-se repertório fácil e de efeito que era abrilhantado pela participação de centenas de músicos de bandas militares ... Nota-se, primeiramente, que não se pretendia fazer uma educação musical voltada para o fato musical em si, mas levar a juventude a dar expressão viva e comunicativa às suas festas e solenidades, através do cultivo do canto patriótico e de músicas populares. A atribuição ao educador musical da função de festeiro da escola já vem de lá..."

No desenvolvimento deste programa, uma série de decretos orienta a educação musical no Brasil e em 1945 mais uma portaria ministerial é publicada, desta vez determinando que todo e qualquer estabelecimento de ensino só poderá admitir como professor de Canto Orfeônico quem possua diploma específico. O CNCO iniciou suas atividade ocupando o terceiro andar do nº 350 da Av. Pasteur (hoje o Instituto Benjamim Constant). Depois ocupou brevemente um imóvel na rua André Cavalcanti. Com o correr do tempo, foi sofrendo mudanças de objetivos até perder aquela força cívica e quase se transformar numa escola de música comum. Presença discreta, porém muito importante no Conservatório, foi a de seu vice-diretor, Henrique Vogeler (1888 / 1944), que por sua ligação com a música popular demonstra que nas raízes do IVL a MPB já se fazia presente com significativa relevância. Henrique Vogeler, carioca do Catumbi, foi compositor, pianista e regente. Filho de pai alemão e mãe brasileira, trabalhou na Estrada de Ferro Central do Brasil e fazia parte de um grupo de teatro de amador organizado por um colega de trabalho. Esporadicamente tocava piano na sala de espera do Cinema Odeon, substituindo Ernesto Nazareth, que era o pianista oficial da casa. Estudou no Conservatório Nacional de Música e a partir de 1919 lançou-se profissionalmente, compondo para os teatros de revista da Praça Tiradentes no Rio de Janeiro. Compôs para o teatro musicado (1919-1942), destacando-se com na revista-opereta A Canção Brasileira em 1933 no Teatro Recreio. Compôs o famoso samba-canção Ai Ioiô, com Luis Peixoto que transformou-se em grande sucesso com a gravação da cantora Araci Cortes em 1929. A partir de 1930, atuou como diretor artístico das gravadoras Brunswick e Odeon. No dos anos 40, organizou programas musicais para a Hora do Brasil, sendo finalmente contratado por Villa-Lobos como seu auxiliar direto no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico.

A obrigatoriedade do canto orfeônico nas escolas foi caindo em desuso até que, em 22 de setembro de 1967 é publicado o Decreto 61.400, que revitaliza o CNCO, transformando-o, finalmente, numa verdadeira escola de música. Por meio deste decreto, o Ministro Tarso Dutra transforma o Conservatório em Instituto Villa-Lobos, constituído de dois organismos: a Escola de Educação Musical e o CPM - Centro de Pesquisas Musicais (daí a denominação de Instituto). Felizmente e a partir deste momento, os propósitos da escola mudam radicalmente e os objetivos passam a ser orientados no sentido de se realizar uma verdadeira educação musical, onde o CPM seria o grande divisor de águas. Três seriam os caminhos: a pesquisa do som e da imagem, a pesquisa musical e a pesquisa do comportamento musical brasileiro. Segundo José Maria, só isto já justificaria a importância e a sobrevivência do CNCO.

O "PRAIA DO FLAMENGO 132"

O prédio inicialmente pertenceu a um clube, o Sociedade Germânia, fundada em 1821 por brasileiros e alemães. Em 1920 se instalaram provisoriamente na Praia do Flamengo 160, enquanto era construída, ao lado, uma casa mais apropriada às suas atividades: o "Praia do Flamengo 132". La permaneceram até 1942, quando sofrem uma invasão feita pelos estudantes em protesto contra as "Forças do Eixo" e contra o torpedeamento de dois navios brasileiros por submarinos alemães. Na ocasião, o imóvel foi tomado não só pelos estudantes, mas também pelo governo, que confiscou o bem dos alemães a título de "compensação de guerra" pelos navios afundados. No entanto, a Sociedade Germânia viria, em 1945, a receber uma indenização. Tomado o prédio, lá se instalou a UNE. Seis anos depois, em 1948, o prédio é invadido por forças policiais. Seria esta a segunda invasão. Em 1956 o edifício sofre uma terceira, por conta dos distúrbios provocados pelos estudantes em protesto contra os aumentos abusivos das passagens dos bondes. Mais traumática, entretanto, foi a quarta invasão, em 1964, quando a UNE perde definitivamente a sua sede e o prédio é criminosamente incendiado. A presença da UNE no imóvel era uma espécie de tolerância que os governos até 64 tinham com os estudantes, mas com o golpe de abril, as manifestações estudantis tornaram a UNE totalmente inconveniente para os propósitos da revolução. Com a UNE fora, o prédio foi destinado ao Departamento de Administração do Ministério da Educação e da Saúde. Com o espaço aberto, logo começaram as manobras políticas para a sua reocupação. Em sua tese de doutorado (Os Teatros do Rio de Janeiro do Século XVIII ao século XX ), o prof. José Dias relata:

".. Em 1964, Bárbara Heliodora Carneiro de Mendonça, então diretora do Serviço Nacional de Teatro, pede ao governo que transfira a posse do prédio, onde estava a UNE. Sendo lá instalado o Conservatório Nacional de Teatro, e que conservou o famoso teatro, conhecido como "Palcão", ex-Teatro do CPC com todas as queimaduras da época da ditadura militar. Sendo construído um palco com projeto de Anízio Medeiros, era sem dúvida um espaço mágico e deslumbrante, com lotação de cento e cinqüenta lugares... "

Mas Bárbara só viria a conseguir o prédio em 1966 com o apoio do Presidente Castelo Branco. Paralelamente a isso, e para surpresa de Bárbara, Reginaldo Carvalho (então Diretor do CNCO e membro da Divisão Extra Escolar do MEC) fazia o mesmo, conseguindo alojar o conservatório no primeiro andar do prédio. Assim, foi feito o casamento do CNT, atual Escola de Teatro, com o CNCO, atual Instituto Villa-Lobos, que agrupados formam hoje o Centro de Letras e Artes da UNIRIO. A história das duas escolas é extremamente rica, principalmente depois da mudança, quase ao mesmo tempo, para o "Praia do Flamengo 132".

O que chamava mais a atenção no "Praia do Flamengo 132" era o belo "Teatro da UNE", mais tarde chamado de "Teatro do Conservatório", de aspecto fantasmagórico que mais parecia uma catedral gótica incendiada. Para ilustrar o estado em que se encontrava o imóvel, Pernambuco de Oliveira (Diretor da ET em 1974 e Decano do CLA em 1975), recém chegado do exterior, foi convidado por João Bettencourt para dar algumas aulas de Iluminação para alunos de Cenografia. Na revista ensaio, em entrevista concedida a Carmen Gadelha e Lucila Peixoto, Pernambuco descreve sua primeira experiência (em 1965):

"... Foi muito engraçado, eu me lembro que naquela sacada onde tinha a bandeira nacional, sentados nos caixotes de querosene,com os alunos todos em volta, nós conversamos pela primeira vez sobre o que era iluminação cênica. A conversa foi muito agradável ... Dois ou três dias depois eu tive a surpresa de ser convidado para dar um curso mais extenso: foi quando fiquei apavorado, pois realmente não tinha nada, material de espécie alguma. Eu que estava vindo de um país em que os recursos eram todos eletrônicos, com aquela aparelhagem incrivelmente sofisticada, e de uma hora para a outra vou dar um curso numa escola pobre que tinham mudado há cerca de 10 dias ali para a praia do Flamengo... Foi em 1965, estávamos mudando para lá. O prédio era melancólico, todo queimado, a gente não podia nem encostar nas paredes pois ficava todo sujo. Não tinha móveis e os que tinham eram velhos. Olha, era realmente uma coisa terrível. Mas tinha um certo encanto a idéia e comecei a desenvolver o curso. E me lembro que no primeiro dia de aula eu acendi um fósforo, coisa que eu faço até hoje, para mostrar o valor da intensidade luminosa. Daí a coisa foi se estruturando...".

REGINALDO CARVALHO

Reginaldo foi, sem dúvida, a viga mestra do IVL, sendo tão importante quanto seu primeiro diretor e fundador, Villa-Lobos. Logo de início implantou na escola o primeiro estúdio de música eletroacústica do Brasil. Na década de 50 foi aluno de composição de Olivier Messiaen e um dos primeiros discípulos de Pierre Schaeffer, o criador da música concreta. Foi o primeiro compositor brasileiro a trabalhar com música eletroacústica e suas primeiras obras remontam à sua estada em Paris, com bolsa obtida por influência de Villa-Lobos. Sob sua direção o IVL se tornou um dos mais importantes centros para a prática da música experimental no Brasil. Graças a Reginaldo, o IVL assumiu um perfil de modernidade sem igual. Também em depoimento à revista ENSAIO, Jorge Antunes, compositor e professor do IVL de 1967 a 69, relata:

"No final de 1966... Reginaldo acabava de ser indicado para dirigir o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico. Começaria sua gestão revolucionando tudo: o Conservatório iria ser transformado em Instituto Villa-Lobos, com um Centro de Pesquisas do Som e da Imagem... Convidou-me para ministrar um curso de Música Eletroacústica no novo Instituto. Assim, no final de 1966 transferi meu laboratório para uma saleta do IVL, e em março de 1967 comecei a ministrar o Curso de Introdução à Música Eletrônica, Concreta e Magnetofônica ... Com o convite do Reginaldo, transferi todo o meu laboratório amador de música eletrônica para o IVL. Instalei o Centro de Pesquisas Cromo-Musicais numa saleta .... O acesso a esta saleta era feito por uma escada íngreme. Mas eu só podia trabalhar no laboratório quando não havia aula na sala de baixo, pois não havia tratamento acústico. O choque de gerações aconteceu. Antigos professores do Conservatório tiveram que começar a conviver com as novas gerações de professores trazidas pelo Reginaldo. Iberê Gomes Grosso foi o mais acessível. José Vieira Brandão, razoavelmente, também o foi. Maria Sylvia Pinto olhou-me de cara feia durante um ano. Em 1968, quando ela veio a conhecer minhas antigas canções para Soprano e Piano, as incluiu em seu repertório e nos tornamos ótimos amigos.
Mas a amizade não mudou seu conceito sobre "aqueles barulhos horríveis que eu fazia lá em cima com os gravadores"... Em 1968 foi criado o Grupo Música Nova do Rio de Janeiro, deste grupo faziam parte: eu, Edino Krieger, Esther Scliar, Reginaldo de Carvalho, Guerra Peixe, Ayrton Barbosa e Marlos Nobre... Em novembro de 1968 foi decretado o AI-5... Um dia Reginaldo me chamou em sua sala e disse que tinha recebido uma carta, segundo ele de um "remetente secreto", dizendo que quatro dos professores do IVL não poderiam continuar ali trabalhando. O Reginaldo abriu a tal carta... para que eu pudesse ler... Lá estavam os nomes do Gouveia, da Esther Scliar, do Guerra Peixe e o meu. Na semana seguinte recebi carta do maestro Alberto Ginastera, de Buenos Aires, comunicando ter eu ganho a bolsa-de-estudos, por dois anos, para o Instituto Torcuato Di Tella... viajei para Buenos Aires. Só voltei ao Brasil cinco anos depois. Antes de partir, apresentei a Marlene Migliari Fernandes ao Reginaldo de Carvalho, dizendo que ela era a pessoa indicada para fazer crescer a pequena semente que eu havia plantado. Marlene acabava de chegar de Buenos Aires, após a bolsa de estudos no Instituto Torcuato Di Tella. Trocávamos, eu e ela, de lugar".

REGIME MILITAR X IVL

Mas a conturbada história do "Praia do Flamengo 132" não terminaria ainda. Em 1972 o IVL viria a passar por uma situação que mudaria radicalmente o seu rumo. A permanente marca de "Prédio da UNE" deixara como herança um forte ranço no governo como foco de subversão. Este estigma acabou servindo de pretexto para uma intervenção de forças policiais. Fato mais estranho é que a Polícia Civil, numa operação suspeita, prendeu do lado de fora da escola alguns alunos e um professor de música num suposto flagrante por porte de drogas. O fato foi amplamente divulgado pelos jornais da época. Porém, nada ficou esclarecido. O detalhe importante é que o delegado que comandou a operação, Nelson Duarte, participava semanalmente de um quadro no programa do Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, onde sempre aparecia como bom moço. Católico fervoroso e defensor da família e dos bons costumes, no Domingo seguinte à operação, o programa apresentou o policial como herói por ter prendido os marginais daquele antro de subversivos. Como conseqüência, o professor, compositor e maestro Jaceguay Lins foi obrigado a se afastar do cargo, indo criar abelhas no interior. Passou um longo tempo longe da música e em 2004, Lins foi encontrado doente e abandonado em seu apartamento, vindo a falecer poucos dias depois. A última homenagem a ele foi feita na Série Concertos Sinfônicos, em Setembro de 2004 e divulgado em matéria publicada no portal do governo do estado, Espírito Santo On Line:

Série Concertos Sinfônicos homenageia Jaceguay Lins
30/09/2004 - 19:57


"A Orquestra Filarmônica do Espírito Santo emocionou a platéia nesta quarta-feira (29), no Teatro Carlos Gomes, quando apresentou a série Concertos Sinfônicos, homenageando o maestro Jaceguay Lins. O concerto teve a participação das vozes masculinas do Coral da Ufes, de quatro solistas capixabas finalizando a noite e da Banda Dois, que tocou a música "Guananira", em homenagem à Jaceguay Lins".

Como sempre, nada ficou esclarecido e tudo indicava que o caso Lins fora uma manobra mal intencionada para uma mudança de rumos no vanguardismo que o IVL vinha promovendo. Após alguns dias meditando sobre qual seria a melhor solução para preservar a existência do IVL, em conversa reservada com alguns alunos e prevendo a conspiração, Reginaldo confidenciou para poucos que, a fim de evitar um prejuízo maior para o IVL, pediria demissão da Direção do IVL, já sabendo que quem assumiria o cargo de diretor seria o General de Exército Jayme Ribeiro da Graça, que há alguns meses vinha atuando como professor da disciplina Estudo de Problemas Brasileiros (EPB). E como vice-diretor, o General Carlos Cadmo de Moura Brandão, que já ministrava a disciplina há mais tempo. Além de militares, ambos eram médicos, assim como era, também o General Alberto Meirelles, antigo presidente da FEFIERJ. Nesse momento o regime militar atingiu o IVL como um míssel. No entanto, graças ao "jogo de cintura" de alguns professores e alunos, a "batata quente" não chegou a se espatifar no chão. Enquanto isso acontecia no IVL, a Escola de Teatro continuava a funcionar sem problemas, porém, com seus professores proibidos de mencionar qualquer palavra sobre o assunto. Por outro lado, com o passar do tempo, o clima de terror foi se abrandando e alguma coisa também foi afetando o modo de ser do general, que apesar de não ter se transmutado em "General da Banda", acabou por se empolgar com as novidades eletrônicas da música. Foi se tornando mais acessível ao longo do tempo, mas não menos arisco (ele e os seres invisíveis que nos observavam). Tínhamos que estar sempre atentos, medindo cada passo, cada palavra, cada trabalho acadêmico. Era um desgaste muito intenso. A convivência com os músicos da vanguarda e com os populares, com certeza, fez-lhe bem. Certo dia, pediu aos alunos para montarem uma fita de "musica concreta" para ser reproduzida no aniversário de formatura de sua turma da academia militar, da qual faziam parte o Presidente Médici e outros importantes e famosos lideres de 64. Queria que fôssemos aos quartéis para gravar os sons do cotidiano da caserna e com esse material compor a peça. Foi um tremendo jogo de "empurra", pois ninguém queria assumir tão nefasta incumbência. Felizmente a idéia não vingou, pois não haveria tempo hábil para a empreitada e ficaram todos muito aliviados. Esse tempo foi realmente muito difícil e delicado para todos no IVL. Tínhamos que conviver com diversas interrupções de aulas, a maior parte das vezes para avisos totalmente irrelevantes, ou para palpites totalmente descabidos sobre música. Coube ao prof. Américo Cardoso Campos a ingrata tarefa de atuar como Coordenador do Curso na ocasião. Para coroar a fase militarista do IVL, a nossa turma teve como patrono nada mais nada menos do que o Almirante Augusto Hamann Rademaker Grunewald, que compareceu e fez questão de cumprimentar pessoalmente os diplomados na cerimônia de formatura, embora alguns formandos mais revoltados tenham se recusado a isto.

Passada a fase militarista, o "Praia do Flamengo 132" ainda viria a sofrer uma quinta e estranhíssima invasão, decorrente da argumentação de que o prédio apresentava condições inadequadas de segurança e que deveria ser evacuado o mais rápido possível. Logo o Corpo de Bombeiros recomendou a interdição do imóvel, o que foi feito às pressas por uma tropa de choque da PM num dia comum de aulas. Todos os alunos e professores foram retirados às pressas sem que pudessem levar seus materiais e pertences. Na verdade, esse episódio seria o começo da mudança para a Av. Pasteur e a pseudo invasão se deu em decorrência da suspeita de que, com a saída do Centro de Artes do prédio, a UNE estaria planejando uma nova ocupação, fato este que pode ter sido um simples "alarme falso" (13 de março de 1980). No entanto, a profª Dr. Tânia Brandão, ainda aluna na época da "mudança", relata:

"Na invasão, eu estava de matrícula trancada e não assisti diretamente, não enfrentei a polícia, vi pela televisão e estive com amigos que apanharam bastante. Mas perdi o armário que tinha na escola, como aluna diretora, com tudo o que estava lá dentro: livros, cadernos de anotações, malhas de aula de corpo, figurinos, sei lá o que mais..."

Após fato tão estranho e dessa mudança a fórceps, o Centro de Artes foi para local provisório (antigo prédio do Instituto de Saúde Mental, ex-casa de Juliano Moreira), no 296 da Av. Pasteur, onde nem palco havia. E pouco tempo depois, para onde se encontra hoje (desta vez de forma mais organizada). Não se pode negar que, graças ao Reitor prof. Guilherme de Figueiredo, por sinal irmão do Presidente da República, algumas facilidades vieram e as duas escolas obtiveram instalações mais adequadas às suas finalidades. Nesta mudança final, Pernambuco de Oliveira teve participação capital, pois como Decano que era desde 1975, tomou todas as precauções necessárias para que o IVL pudesse chegar a seu destino com ordem. A Escola de Teatro mudou alguns meses antes do IVL, que permaneceu no 296 (hoje Reitoria), aguardando a finalização das obras.

A MÚSICA POPULAR NO IVL - ANOS 70

Contar como começou a Música Popular (MP) no IVL é uma tarefa extremamente gratificante e divertida. Além de ser uma história original, também demonstra que a UNIRIO é pioneira no tema, ainda que existam opiniões divergentes. Provavelmente tais divergências tenham origem no desconhecimento dessa curiosa historia. Portanto, é fundamental dar início ao processo de registro da memória da MP praticada há mais de 30 anos no IVL, na esperança de que outros, com igual preocupação, possam continuar fazendo o mesmo, inclusive para além da década de 70. Assim, poderemos trazer à luz tão importante fase da vida do IVL, inclusive para que fique claro os motivos da implantação do curso de Bacharelado em Música Popular Brasileira. Este curso não surgiu de um capricho de apaixonados pela MP, nem de uma necessidade momentânea de atender a tanta demanda. Foi o resultado de um processo longo, natural e histórico que exigiu a abertura de um leque maior de opções, dentro de uma realidade que teve origem no próprio mercado amador e profissional da música. Arrisco dizer que a absorção pelo mercado de trabalho do músico popular que passa pela universidade gira em torno dos noventa por cento, se não for mais. Aliás, podemos dizer o mesmo dos demais cursos de música.

O mais difícil, e não menos importante, é resgatar a produção musical dessas quase quatro décadas de atividade musical do IVL. Há alguns anos venho tentando fazer o resgate das próprias produções com as quais estive envolvido, desde arranjos e composições que foram tocados e apresentados, mas finalmente perdidos. Alguns foram gravados em fitas magnéticas feitas durante as aulas, com precários equipamentos. As grades de partituras, quando eram feitas, na maioria se perderam. Muitas dessas grades foram escritas em um modelo de papel pautado que o IVL tinha estocado em seu almoxarifado, que pareciam ser da época do próprio Villa-Lobos. Já tinham a aparência de pergaminhos em 1970. Hoje tudo virou pó ou se apagaram, pois eram geralmente escritos a lápis. Também se perderam as partes específicas dos instrumentos, que ficaram em posse dos membros dos grupos, que depois de decoradas, eram quase sempre descartadas e, depois, perdidas. Esse resgate, portanto, é uma missão que devemos nos impor e é até o motivo principal deste trabalho. Se for impossível tal resgate, que pelo menos daqui para frente, toda e qualquer produção musical seja preservada.

A prática da música popular no IVL tem, no mínimo, 34 anos. Ainda não foi possível determinar exatamente quando começou, porém a sua presença como parte integrante do cenário musical do IVL teve o impulso inicial pela ação dos Professores Hélio Sena e Armida Teixeira, que em 1970 já incentivavam essa prática na escola. A partir dai a MP entrou definitivamente na trilha que culminou com a implantação do Bacharelado em Música Popular Brasileira no IVL, mas somente 28 anos depois, em 1998.

Assim, a partir de 1970, a MP começava a soar no primeiro andar do "Praia do Flamengo 132", tanto quanto a erudita tradicional e, com muita intensidade, a Música Concreta, a Eletrônica e a Aleatória. A escola se tornou um centro musical à parte, não só pela divisão do prédio com a Escola de Teatro, como ocorre ainda hoje, como também pela afluência de músicos que para lá convergiam. O IVL era o "ponto de encontro" da vanguarda musical da época. E porque não dizer, um verdadeiro "Fórum Permanente de Música". Com isso, o "Praia do Flamengo 132" adquiriu uma atmosfera de modernidade muito avançada, mas altamente suspeita para o momento político da ocasião.

Uma característica interessante sobre a atuação dos professores da época, era a polivalência, pois faziam de tudo e ministravam disciplinas de naturezas totalmente diversas, coisa que desapareceu depois da entrada em cena do sindicalismo cego e dos concursos públicos. Essa característica ia desde a atuação em sala de aula, passando pela capacidade de administração e, ate mesmo, pela disposição de arregaçar as mangas para fazer faxina. O depoimento da profª Regina Márcia Simão Santos é revelador:

"Em 1973 entrei como substituta da profª Ermelinda Paz e depois (como efetiva) na vaga do profº Bohumil Med, que havia sido "roubado" para Brasília... As disciplinas que ministrei na época foram: Percepção Musical, Piano complementar, Harmonia, Estrutura e Funcionamento do Ensino, Didática Musical e Prática de Ensino. No meu período de formação no IVL (1969 a 1972) três tendências foram marcantes, ou pelo menos registrei assim na minha memória: a tendência à expressão contemporânea (Lins, Marlene Fernandez, José Maria Neves, levando os alunos a comporem música serial, lidarem com séries, o que me fascinava); a prática de George Kisely, violista que dava também História da Música, a partir da escuta e identificação dos períodos, das escolas, das obras e dos compositores; e a proposta do Reginaldo Carvalho (Diretor do IVL) que propunha uma formação musical não centrada na leitura (partitura), mas na experiência com a música como fenômeno sonoro, social, sempre contextualizado, e provocava os egressos da formação tipo "bolinha e pauzinho, compassos e métricas" a desenvolverem outras competências, talvez mais musicais e menos metronômicas. Dentre as atividades acadêmicas que Reginaldo desenvolvia, as suas atuações ficaram marcadas por gestos de transgressão ao propor atividades inusitadas para alunos da música (envolvendo corpo, textura e movimento etc), mas também marcadas por arranjos musicais de sua autoria, para temas e obras do repertório brasileiro popular que eram executadas pelo Coro dos alunos do IVL".

Embora ainda fosse informalmente elemento integrante do curso, a MP era praticada com uma intensidade extremamente significativa. No currículo da época, ainda que de forma embrionária, isso ocorria nas disciplinas ARRANJOS E TÉCNICAS INSTRUMENTAIS, PRÁTICA INSTRUMENTAL, CANTO CORAL, TÉCNICA VOCAL, FOLCLORE E MÚSICA DE CMERA, mas sempre condicionadas à experiência de cada professor. No caso da Técnica Vocal, por exemplo, a professora Maria Sylvia Pinto, suportava com grande elegância o enxame de cantores populares que invadia suas aulas, mas não conseguiu admitir, jamais, a "prosódia desengonçada" das letras das canções populares que assombravam suas aulas, principalmente aquele canto "fanho" da Bossa-Nova, muito menos o "rouco" do Rock. Diga-se de passagem, que a profª Maria Sylvia, além de excepcional artista tinha uma habilidade didática primorosa. Foi muito amiga de Villa-Lobos. Pena não se encontrar mais entre nós para contar as histórias super engraçadas que sabia sobre o Maestro.

Maria Sylvia Teixeira Pinto (soprano e folclorista) estudou no Instituto Nacional de Música da Universidade do Brasil , onde formou-se com Medalha de Ouro em Piano. Sempre atuou como colaboradora de cameristas, particularmente de cantores. Tinha fama de possuir qualidades musicais excepcionais. Estudou canto com Murillo de Carvalho. O crítico Andrade Muricy sempre dizia: "um recital de Maria Sylvia é uma festa de inteligência. É uma intérprete". Diversos compositores dedicaram a ela muitas canções de câmara, que ela mesmo cantou em estréia mundial e muitas vezes acompanhada dos próprios autores. Maria Sylvia Pinto foi professora requisitada lecionando Canto e Folclore Brasileiro, por muitos anos, no IVL. Os arquivos da Rádio MEC guardam muitas gravações de programas nos quais Maria Sylvia atuou. Lançou, em 1985, o livro A Canção Brasileira. Foi sucessora de Rossini Tavares de Lima na Cadeira nº 39 da Academia Brasileira de Música.

Nos anos de 72 / 73 tive a oportunidade de atuar como monitor da disciplina Prática Instrumental – Violão, com conteúdo voltado basicamente para a MP, embora não houvesse ainda professor de violão na escola. Dois anos depois (76 / 77), foram monitores da disciplina os alunos violonistas Paulo Name e Ivo Cordeiro. Em 78 retorno ao IVL como Professor Colaborador e em 1980 passo a efetivo, em função da implantação dos cursos de Bacharelado em Violão. No segundo semestre de 80 é contratado o violonista Turíbio Santos, que assume definitivamente o Bacharelado em Violão, ficando sob minha responsabilidade o Violão-Complementar, cujo programa concentrava mais elementos da MP do que do repertório tradicional do instrumento.

No IVL dos anos 70, a ênfase recaia sobre a música MP e a de Vanguarda, não tanto pelos programas das disciplinas, mas pela própria vivência dos seus professores. A profª Regina Márcia ainda nos lembra que na disciplina Folclore, no final dos anos 60, ministrada pela profª Zaíde Maciel de Castro, sucedida em 70 por Edson Carneiro, a música popular era fortemente contemplada e que corria lado a lado com os estilos mais tradicionais, o que criava "uma convivência no mínimo provocativa, levando os alunos a uma imersão e, conseqüentemente, à abertura da escuta para várias possibilidades da prática musical". No caso da música de vanguarda, atuações marcantes tiveram os professores Emílio Terraza, Sônia Borne, José Maria Neves e o próprio Reginaldo Carvalho. No âmbito da música clássica, evidentemente muito praticada no IVL, formamos em 1973 o "Collegium Musicum do Instituto Villa-Lobos", especializado em música Renascentista e Barroca que não se furtava a executar alguns arranjos de MP produzidos por alguns alunos, chegando mesmo a incluí-las em alguns concertos. Eram seus componentes: George Kiszley (criador do grupo, que tocava violino e viola), Laura Rónai (Flautas), Cícero Siqueira (Flauta-Doce), Hindemburgo Pereira (Viola), Bohumil Med (Trompa) e Ricardo Ventura (Violão). O conjunto se apresentava com trajes típicos, tendo realizado diversas apresentações no Rio de Janeiro e São Paulo. Este conjunto se tornou oficial do IVL e contava com o apoio do diretor do IVL, o Gal. Graça, coisa que não ocorria com muitos dos grupos que se formavam, principalmente os de Rock, que não eram bem recebidos pelo General. Como agravante, estávamos em plena era "Hippie" e o IVL era, também, um ponto de convergência deste e de outros tantos movimentos. Entretanto, todos os alunos e professores conviviam na mais perfeita harmonia. Tudo interessava a todos, apesar do regime militarista implantado.

Os professores das disciplinas mais tradicionais sempre se mostraram receptivos e interessados nas composições populares que surgiam nas diversas aulas. Alguns estão na ativa até hoje, como os Professores Ricardo Tacuchian, Regina Márcia Simão Santos e Sílvio Merhy. E os que se aposentaram, deixaram marcas muito profundas na memória do IVL e, principalmente, na geração de músicos que tiveram o privilégio de passar pela escola na conturbada década de 70. Disse "músicos que tiveram o privilégio de passar pelo IVL" porque muitos deles não eram alunos, enquadravam-se mais na categoria de "penetras". Reginaldo não se importava muito com os "penetras", pois geralmente eram músicos de primeira linha e a convivência com os alunos regulares era muito proveitosa.

FORMAÇÃO DE CONJUNTOS

Diversos conjuntos de MP foram formados desde 1970, chegando mesmo a gravar discos e fazer apresentações públicas com grande projeção na mídia. A "Equipe Mercado", o "Painel de Controle", o "Entradas e Bandeiras" e tantos outros que nem nomes tiveram, mas que foram o embrião de diversos conjuntos profissionais. Em 1972, com a intervenção federal, o panorama acadêmico no IVL mudou muito. No entanto, as coisas foram pouco a pouco retomando alguns (apenas alguns) caminhos perdidos e o IVL não sucumbiu, apesar de tudo. A falta de espaço e condições acústicas do prédio da Praia do Flamengo, bem como a falta de salas de estudo incomodavam muito, mas não impediam que todo tipo de música fosse praticado, pois graças à ação de alguns alunos, dentre eles Roberto Gnattali, o IVL abriu suas portas aos sábados para se fazer música. Mas algumas atividades acabaram, bem como algumas matérias ligadas às Artes Plásticas, que eram ministradas por artistas de grande expressão. Nos bons tempos das Artes Plásticas, as aulas eram ministradas no Museu de Arte Moderna (MAM). Espaço para cantina não havia, mas o "Cabanas Bar", um boteco vizinho, fora adotado como Cantina Informal do antigo Centro de Artes. E era exatamente lá que o efetivo do IVL e da ET se reunia. Roberto Gnattali e Antônio Guerreiro Junior que contam:

Roberto Gnattali
(aluno de 1972 a 1974 / Professor Colaborador de 1978 a 1979 e Efetivo a partir de 1980):

"Outro dia mesmo estava contando pra uma turma de HMPB o que foi o passado dessa escola, na época em que ingressamos como alunos. Em 1972, em plena ditadura, vivíamos os ecos recentes do truculento governo Médici e ainda não se podia vislumbrar com clareza o que seria o governo Geisel. O único curso de música do IVL não tinha nenhuma disciplina que produzisse som, não havia MDC nem PC nem coisa alguma que lembrasse um conjunto de música. A ditadura não via com bons olhos os ajuntamentos de alunos, as turminhas, os bate-papos nos corredores da escola. Tanto que o IVL abria as suas portas às 18h em ponto e as fechava as 22h. Não se tinha nada a fazer na escola fora desses horários, nem era permitido. Nessa época o professor Bohumil Méd, um trompista tcheco contratado da OSB, era nosso professor de teoria e percepção musical e também professor de instrumento complementar – trompa. Resolvi encarar, comprei a trompa do Rodolfo Caesar, o Duda, que acabara de desistir da carreira de trompista, e ingressei na classe do Bohumil. Alguns colegas de turma eram, também, iniciantes em seus instrumentos, alguns vindos de cursos particulares, fora da universidade. Lá por meados de 1972, eu e alguns desses colegas da 1ª série (naquele tempo o curso era seriado) resolvemos montar um conjunto por nossa própria conta (e risco!). Precisávamos praticar em grupo e alguns ainda queriam treinar a escrever arranjo. O grupo, um sexteto, era a coisa mais esdrúxula possível: um violino, uma flauta, um trompete, um saxofone tenor, uma trompa e um contrabaixo a arco. Não tinha nenhum instrumento harmônico nem percussão. A nossa professora de Perceção Musical, Armida Teixeira nos deu a maior força. Mas não tínhamos um local adequado para ensaiar e então tomamos coragem e fomos conversar com o General Graça, o nosso Diretor (na verdade, um interventor militar), e convencê-lo a nos deixar ensaiar na escola fora do horário das aulas, ou seja, quando a escola ficava fechada. Em princípio ele mostrou-se perturbado, pediu um tempo para pensar, pra poder avaliar melhor a situação, coisa e tal. Ficamos até um pouco apreensivos: será que vamos ser investigados? Será que vamos ter que provar que não somos subversivos? Paranóias muito comuns na época. Lembro que isso foi um verdadeiro transtorno na cabeça do General que, finalmente, cedeu. Lá íamos nós ensaiar, todas as manhãs, de 9 ao meio-dia. Os integrantes eram Maria Antonia (6 meses de flauta), Luiz Carlos (menos um pouco de violino), Guilherme Dias Gomes (um ano de trompete), Carlos Watkins (iniciando no saxofone), eu (há 6 meses na trompa) e um colega no contrabaixo, cujo nome não lembro, também iniciante. Os arranjos eram meus e do Guilherme. A gente escrevia muito mais difícil do que podia tocar, e ficava tudo uma desgraça, sempre. O amigo do violino era muito iniciante, e sabe como é violino... Pois não é que, no final do semestre, nós nos apresentamos na classe de percepção musical da "tia" Armida? Um conjunto de alunos do IVL, quem diria! E foi assim, que eu me lembre, que começamos a musicar na FEFIERJ, entre os alunos, com uma constância como se fosse uma disciplina. Na verdade, não valia nada, nem carga horária nem créditos, uma pena. Hoje me lembro disso e vejo como as coisas mudaram para melhor na vida dos alunos. Como lutávamos naquela época. E como valorizávamos aqueles ensaios e aquele espaço que nos foi concedido pelo diretor da escola. Era só estudo, mesmo, não havia intenção alguma de mais nada além disso. Talvez por isso nunca nos preocupamos em dar nome ao grupo. Outros tempos, outra realidade, dificuldades mis. Pouco tempo depois, acho que em 1973, fundamos outro conjunto, dessa vez um pouco mais "normal", no qual tocavam eu (piano e trompa), Rick (Violão), Márcio Alt (Baixo), Maria Antonia e Renato Alt (Flautas.) Todos os integrantes eram alunos do IVL. Mas nuca nos apresentamos em público. A gente queria mesmo era estudar e tocar junto." Anos mais tarde, já como professor, tive o prazer de formar alguns grupos de Música de Câmera que deram excelentes frutos à música popular do Rio de Janeiro.
Gostaria, finalmente, de relatar duas grandes experiências das quais participei, no âmbito da Unirio, ambas da mais alta relevância.

1- Em 1984, com patrocínio do RIOARTE, órgão de cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, em convênio com a UNIRIO, coordenei uma oficina de férias de Prática de Orquestra de MPB. A oficina acontecia nos sábados e domingos, de 9h às 17h, do mês dezembro. Além desta, outras duas oficinas foram também realizadas: a Oficina de Choro, coordenada pelos músicos Luiz Otávio Braga, Henrique Cazes e Afonso Machado, e a Oficina de Canto Coral, sob a coordenação do maestro Marcos Leite. Ao todo, a cada fim de semana, o campus do CLA recebia uma média de 300 pessoas, numa época em que tais atividades eram uma completa novidade. Uma orquestra sinfônica jovem de música popular brasileira, um coral de 60 vozes cantando de Pixinguinha e Villa-Lobos a Caetano Veloso, conjuntos de choro espalhados pelos quatro cantos do CLA, traduzidos em flautas, cavaquinhos, pandeiros, violinos, acordeons, violões e bandolins, algo que nunca se vira no campo do ensino intensivo de música popular, no Rio de Janeiro.
As apresentações de encerramento das oficinas se deram no centro da cidade, no chamado, a época, Corredor Cultural, nas imediações da Praça XV. As imagens gravadas que guardamos dessas apresentações revelam o interesse do público mas também o entusiasmo dos músicos que participaram das oficinas.
2- Das Oficinas de Choro e de Canto Coral surgiu uma nova onda de jovens chorões, culminando com a criação da Orquestra de Cordas Brasileiras, além de diversos novos conjuntos de choro. Das oficinas de Canto Coral surgiram vários grupos vocais de música popular brasileira, além de incentivar o aparecimento de novos arranjadores e regentes de coro. Da Oficina de Prática de Orquestra de MPB nasceu a Orquestra de Música Brasileira. O grupo de 35 músicos gravou um cd pela gravadora Eldorado, de São Paulo, apresentou-se no IV e VI Free-Jazz Festival, em 1988 e 1991, no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente. Em um determinado momento, a OMB chegou a ser considerada pela crítica nacional, entre 1988 a 1991, como uma das mais originais e gratas revelações surgidas na MPB na década de 80. Infelizmente, graças a falta de apoio estrutural e financeiro, e à recessão galopante, a orquestra encerrou suas atividades no final de 1991, após um caloroso reconhecimento de público e de crítica na cidade de São Paulo. Nos sete anos de existência da OMB a sua sede oficial, de ensaios e reuniões, foi o Instituto Villa-Lobos da Unirio, onde eu já atuava como professor e era chefe de departamento."

Antonio Guerreiro de Faria Junior
(aluno de 1974 a 1977 / Professor Efetivo a partir de 1978):

"Bem , música popular eu sempre havia feito. Quando entrei na FEFIEG em 1974 era um egresso dos conjuntos de rock, baile e já tinha uma certa experiência pois desde os 17 anos tocava em bailes e mais tarde fui me profissionalizando. Já tinha acompanhado o Gileno ( do Leno & Lilian), Doris Monteiro , Eliana Pittman , e Tim Maia. O IVL foi uma revelação para mim , pois não imaginava que uma escola de música fornecesse uma convivência tão rica. Inicialmente , tornei-me Monitor de Harmonia , e depois fui deslocado para MDC , que cobriria uma prática de conjunto e lá tinha que fazer os arranjos para Sax , Trompete , Flauta e cozinha. Isso veio a somar na minha formação musical, claro, pois sempre fiz música popular e música de concerto , ao mesmo tempo. Qual o espaço que hoje os alunos tem para testar seus próprios arranjos de forma lúdica , e não curricular ? Nenhuma... Mais empolgante para mim foi participar de um Festival de música no próprio IVL , fazendo arranjos para as músicas do Sylzed Pimentel ( um samba do qual me esqueci o nome) e do Juca Filho ( a música chamava-se Ares Mineiros). O grupo do Roberto Gnattali executou os arranjos , se não me engano . Lendo agora o depoimento dele, jamais seria capaz de imaginar que ele tocava trompa fazia tão pouco tempo, pois ele era muito bom trompista. Naquela época de ditadura , houve censura prévia às músicas , e uma delas , de Reinaldo Vargas foi censurada e isso gerou um tremendo mal estar no meio estudantil. As práticas funcionavam como fator integrador de grupos musicais de estilos diversos, e o Cabanas Bar, que era a "filial " do IVL proporcionava chopp gelado , vinho de garrafão, caipirinhas da melhor qualidade e um ambiente de troca de idéias que dificilmente acontece hoje. Comparando o IVL antigo com o atual, sinto uma espécie de vazio, pois mesmo nos tempos de ditadura a criatividade transbordava, as idéias fervilhavam e a política acadêmica ainda não havia feito sua entrada no magistério. Sentíamos que o aluno e a música vinham em primeiro lugar. Hoje o que sinto é o desrespeito ao aluno, o que vem em primeiro lugar e a música, coitada, vindo em último lugar. Hélio Sena cuja aposentadoria prematura foi catastrófica para essa escola e Armida Valeri Teixeira imprimiram ao IVL uma "onda" que dificilmente poderá ser reeditada nos tempos atuais de Mestrado e Doutorado. Sinto saudades da Música neste IVL, palavra de honra".

No festival que Guerreiro menciona, a comissão julgadora era formada por professores do IVL tendo como presidente o saxofonista Paulo Moura.

Em texto recente o Professor Sílvio Merhy relata:

"Ingressei na UNIRIO na década de 1970 para ministrar a disciplina harmonia, logo iniciando um movimento de unir a prática harmônica ao domínio do teclado, através de simples inserção de alguns conteúdos da disciplina Teclado Básico nas tarefas de harmonia. Depois de quase uma década de trabalho foi possível tornar mais rigorosa a distinção entre conteúdos do piano funcional e as aulas de formação pianística exclusivamente voltadas para o repertório e técnica, o que não era o objetivo do Teclado Básico. A disciplina foi sendo transformada com a inserção de conteúdos harmônicos e com o trabalho já desenvolvido pela Professora Armida Valeri Teixeira, que colocou como um dos objetivos da disciplina a prática do repertório de canções brasileiras cifradas."

Como se pode perceber, tanto o Teclado Básico como a Harmonia de Teclado, sempre tiveram o seu conteúdo voltado para a MP, desde a década de 70. Neste ponto, os conteúdos dessas disciplinas já possuíam uma integração com a Pratica Instrumental – Violão, cujo programa era especificamente dirigido para a prática do repertório de canções brasileiras cifradas. O Violão tradicional só veio a ganhar conteúdo especifico em 1980, com a chegada do prof. Turíbio Santos, que elaborou o programa do Bacharelado em Violão. Portanto os bacharelando em violão cumpriam os conteúdos ligados ao repertório tradicional do instrumento, enquanto que os que cursavam a Prática Instrumental - Violão, caminhavam em direção à MP. Mas somente em 1998 foi criada a disciplina Violão Popular, por conta da implantação do Bacharelado em MPB.

Depoimento importante também faz Roberto M. Moura no seu livro sobre a "Praça Onze":

"No início dos anos 70, fui estudar música no Instituto Villa-Lobos, da FEFIERJ, na antiga sede da UNE, na Praia do Flamengo 132. Por conta da repressão às manifestações estudantis, o prédio tinha sofrido um princípio de incêndio – mas mesmo assim seus escombros representaram um nicho fundamental de formação da minha geração. No Villa-Lobos, fui aluno do antropólogo Edson Carneiro, do crítico de artes Frederico de Moraes, da pensadora Rose Marie Muraro e de professores como J. Lins, Marlene Fernandes e Ilmar de Carvalho. O diretor era Reginaldo Carvalho e da minha turma faziam parte Paulinho da Viola, Marcus Vinícius, Milton Temer, Léa Penteado, Carlos Imperial e ngelo Antônio, da Turma da Pilantragem. Na mesma época, estudavam lá também Mauro Senise e Rick Ventura. Pois bem: foi ali que reencontrei Cartola, atração do espetáculo Cartola Convida, produzido por Jorge Coutinho e Leonides Bayer e que seria o embrião das inesquecíveis Noitadas de samba do Teatro Opinião. O Villa-Lobos era uma escola de vanguarda – falava-se o tempo todo em serialismo e Stockhausen, conseqüentemente poucos davam atenção para aquele mulato magro que antes de cantar sentava-se na copa do bar Cabanas e pedia uma cerveja e um Dreher. Aos poucos, fui me aproximando dele – e sua gentileza acabou tornando nossos encontros semanais uma das melhores lembranças da minha licenciatura musical."

Outro aspecto a ser destacado com relação às atividades musicais informais do IVL é a integração com o Curso de Teatro. Como acontece ainda hoje, montagens teatrais (da disciplina Prática de Montagem) eventualmente contam com a participação de alunos de música, que não só podem atuar com seus conjuntos, como também podem compor ou dirigir musicalmente o espetáculo. É preciso, portanto, resgatar os programas das peças para delinear o histórico destas atividades informalmente integradas no CLA. O único programa de peça de teatro com músicos do IVL que localizei é o da peça ANTÍGONA, de Sófocles, que ficou em cartaz no Palcão do "Praia do Flamengo 132" de 6 a 15 de Julho de 1973. A montagem teve Direção de Roberto Nóvoa; Expressão Corporal e Coreografia de Jonas Dakbecchi e Cenografia de Vera Monteiro. No papel de Antígona: Ilma Pazo e Nina de Pádua; Ismênia: Rita Eich; Creonte: Perfeito Fortuna ou Jorge Luiz. Execução Musical a cargo dos violões de Márcio Gatto, Sérgio Fidalgo, Flauta Transversal: Laura Rónai e nos violões: José Roberto Mendes e Rick Ventura

As décadas seguintes foram igualmente importantes para a MP no IVL, principalmente pela transição de uma direção de cunho militar para uma civil. Ao assumir a Direção, em 1979, a professora Ermelinda Azevedo Paz trouxe novos ares ao IVL. Voltamos a ser uma escola de música mais preocupada com o fato musical, com o fazer musical e com a evolução do ensino. Passamos a nos preocupar mais com regimento interno do IVL do que com Regulamento Disciplinar do Exército. A partir desse momento um novo rumo foi traçado. A Profª Ermelinda, que desde 1972 integrava o quadro docente do IVL, adotava como suporte a música popular e folclórica brasileira em suas aulas de percepção. Em 1989 publicou o livro 500 Canções Brasileiras, que é o reflexo de realizações oriundas daquelas aulas de percepção da década precedente. Na gestão seguinte, a chegada da professora Saloméa Gandelman à direção da escola (81/82), promoveu outro significativo impulso ao IVL, já integrante de uma estrutura universitária e dotado de uma sólida estrutura acadêmica e administrativa. Acadêmica graças ao esforço hercúleo do corpo docente e administrativa devido ao forte empenho e interesse dos servidores. No caso da administração escolar, o Gal. Graça ajudou bastante, pois organizou a Secretaria do IVL como um quartel. Embora ainda não estivéssemos na era da informática, a Secretaria, a Direção e os Departamentos funcionavam com muita eficiência administrativa. O CLA possuía uma Seção de Patrimônio, uma Seção de Pessoal e uma Contra-Regra Musical que conferiam ao IVL um desempenho excepcional. Nos anos 80 chegaram ao nosso quadro docente, nomes da maior relevância do cenário musical nacional e internacional, porém essa década já é um outro capítulo da história. Mas ainda nos gratifica ver que diversos conjuntos continuaram e continuam a se formar. O nível técnico e profissional dos alunos vem se tornando cada vez mais alto. Muitas das produções de monografias de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado envolvendo a MP têm sido finalizadas, o que aponta para um crescimento significativo da MP no meio acadêmico. A exemplo disso, outras instituições de nível superior no Brasil estão abrindo suas portas à MP com excepcionais condições materiais. Portanto, o IVL tem hoje com a MP um comprometimento muito maior do que aquele que tinha na década de 70. Afinal de contas, com a implantação do Bacharelado em MPB a informalidade se foi. O questionamento sobre a existência e pertinência do curso agora é tópico inconsistente. Necessário é aperfeiçoá-lo e avaliá-lo permanentemente, para que suas finalidades e objetivos fiquem cada vez mais transparentes e adaptados à realidade atual, até mesmo se for para contrariar Noel Rosa em sua famosa máxima: "ninguém aprende samba no colégio". Afinal de contas, o que temos visto atualmente é a academia fazendo samba e a comunidade fazendo orquestra sinfônica. Temos hoje, princípios bem fundamentados das finalidades, dos objetivos, do perfil de aluno e da própria prática da música popular no IVL, principalmente quando temos os três pólos básicos da educação superior contemplada:

Na extensão, pelos diversos projetos voltados à MPB, que hoje conta com mais de 620 alunos. Destaque especial deve ser dado ao Curso-Oficina de Choro - (Escola Portátil de Música), que se consolida como o grande fornecedor de material humano de qualidade para os Cursos de Bacharelado em MPB e de Licenciatura, além do mercado de trabalho.

Na graduação, pelo próprio Bacharelado em MPB. E na Licenciatura, onde a MPB é uma linha mestra, podemos ver essa antiga prática se perpetuando nas Práticas de Conjunto, nas aulas de Piano e Violão Popular, na Harmonia de Teclado, nos Estágios e em número extremamente significativo, nas monografias de conclusão de curso.

Na pós-graduação, pelas diversas dissertações de mestrado e teses de doutorado já defendidas e publicadas, cujo foco central é a MPB.

SOBRE O CURSO DE LICENCIATURA EM MÚSICA - INÍCIO DOS ANOS 70

O currículo do curso de Licenciatura em Música, descrito ao final desse texto, abrange os anos de 1970 a 1973, porém não faz a listagem exata das disciplinas relativas aos dois primeiros anos do curso. Muitas delas, ou foram excluídas, ou tiveram seus nomes mudados pelo então Diretor General, uma vez que o mesmo não concordava com os títulos esdrúxulos de algumas disciplinas como, por exemplo: "COISAS", que era ministrada pela Profª Maria Lúcia Baronto e Souza, "CIBERNÉTICA" por Rose Marie Muraro, "GILÓ" (com G mesmo) por Jaceguay Lins e outras com nomes igualmente exóticos. Quanto a "COISAS" e "GILÓ", ainda se pode entender, pois seria realmente muito estranho tê-las listadas num histórico escolar, mas quanto a CIBERNÉTICA, a Matemática e a Acústica, aqui fica a interrogação.

"COISAS" era um apelido para Artes Plásticas, que no caso tinha um conteúdo extenso que incluía até Trabalhos Manuais, Artesanato ou qualquer atividade que se relacionasse com a produção de "coisas" feitas de forma improvisada. E "GILÓ", era mais um outro apelido, dado pelo próprio Lins, para a prática de improvisação vocal em grupo (tipo coral), formado pelas vozes tradicionais (Soprano, Contralto, Tenor e Baixo) e conduzida pelo próprio Lins ou pelos alunos, que apontando figuras pictóricas determinava o tipo de som a ser emitido por cada registro vocal, gerando uma composição musical improvisada de caráter totalmente aleatório. O Regente era um verdadeiro "compositor acidental". Aliás, a música aleatória era uma febre no IVL. Essa atividade acontecia sempre às quartas-feiras nos dois últimos horários e reunia todos os alunos da escola. Era um horário reservado ao que se chamava "Seminário", que poderia ser uma palestra, um concerto, um ensaio de coro convencional ou simplesmente "Giló", mas sempre com lista de presença, pois tudo era obrigatório. Eram atividades tão interessantes que as salas ficavam sempre abarrotadas de alunos e de "penetras". E dentre os "penetras", os suspeitos de serem os "espias" do poder. Vale destacar as estratégias que usavam os alunos da ET para identificar os agentes infiltrados, habilmente descritas na imperdível dissertação de mestrad de Jane Eiras Castanheira (citada).

O motivo de tais "esquisitices" no curso era decorrente da intenção do Reginaldo em preparar o terreno para a implantação de cursos como Engenharia de Som, Acústica Musical, além dos Bacharelados e Licenciatura hoje existentes. Na verdade ninguém sabia muito bem que curso estava fazendo.

Nessa atividade das quartas-feiras, o "Seminário", eram freqüentes as "Jam-Sessions", onde grandes nomes do Jazz carioca participavam. Rodas de samba e de Rock também eram freqüentes. Por isso podemos dizer, mais uma vez, que a UNIRIO é pioneira na introdução da Musica Popular no ensino superior, se não como curso regular, pelo menos na prática informal dos eventos da escola e no programa de algumas disciplinas como já foi mencionado.

Em 1988, dez anos antes da implantação do Bacharelado em MPB, o prof. Hélio Sena em depoimento no 3º Caderno de Produção Musical, organizado pela profª Moêma Renart de Brito, reclamaria:

"É o maior absurdo que uma universidade invista tanto dinheiro em coisas com que a maioria da população não tem o menor vínculo! Há cinco cursos de música em nível superior no Rio de Janeiro e todos eles estão fazendo a mesma coisa. Bastaria um e que os outros se dedicassem a um trabalho um pouco diferente ou radicalmente diferente. É preciso rever essa prática pela base."

A profª Moema, hoje aposentada, criou as disciplinas Legislação e Produção Musical / Teatral, que tanto orientou os artistas em seus direitos e deveres relacionados à profissão. Começou no SNT, chegando à Escola de Teatro em 1972, mais tarde transferindo-se para o IVL, chegando a ser Chefe do Departamento de Educação Musical.

Outros professores da época não citados no texto que teriam muito para contar:

Frederico de Moraes, Ivair Coelho Lisboa, Ivan Fonseca, Luiz Zamith, Madureira, Marília Pinto Almeida, Mário Guerreiro, Murilo, Rosa Maria Zamith, Marlene Fernandes, Sônia Borne, Vânia Granja, Waltércio Caldas e outros que já não se encontram mais entre nós.


DEPARTAMENTOS DO IVL EM 1973

DEPTO DE ESTRUTURAÇÃO E TÉCNICA MUSICAL:
Chefe: Armida Valeri Teixeira

DEPTO DE DISCIPLINAS PEDAGÓGICAS E COMPLEMENTARES:
Chefe: Maria Sylvia Teixeira Pinto

DEPTO DE CIÊNCIAS E ARTES:
Chefe: José Maria Neves


CURSOS
(em regime seriado)

- Licenciatura Curta em Educação Artística
- Licenciatura Plena em Musica

Instalações do IVL: 4 salas de aula, 2 estúdios com tratamento acústico e 1 laboratório de musica (CPM – Centro de Pesquisas Musicais).
Efetivo: 16 professores e 168 alunos de graduação.
Area: 1.530 m2





CURRÍCULO DO CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM MÚSICA
(1970 a 1973)


O curso era ministrado em regime seriado e em dois turnos (tarde e noite), o que possibilitava a existência de duas turmas de uma mesma série, num mesmo semestre.


1º ANO (CURSO BÁSICO)

Construção Musical, Educação Física, Folclore, Análise Morfológica e Estética, Estudo de Problemas Brasileiros, Prática de Audição, Artes Plásticas (Percepção Visual), Apreciação - Análise e História das Artes, Prática de Canto Coral, Prosódia Musical, Psicologia Geral, Estética, Análise Auditiva da Estruturação Musical, Ritmo, Fisiologia da Voz e Técnica Vocal.

2º ANO (CURSO PROFISSIONAL)

Apreciação, Análise e História das Artes, Estética, Estruturação Musical, Estudo de Problemas Brasileiros, História das Artes Plásticas, Introdução à Música, Percepção Musical, Prática de Canto Coral, Ritmo, Sociologia Musical, Técnica Vocal, Sociologia da Arte, Prática Coral, Estruturação Musical (Harmonia), Educação Física, Psicologia Geral e da Percepção, Psicologia Educacional.

3º ANO (CURSO PROFISSIONAL)

Canto Coral, Estética (Análise Musical), História da Música, Iniciação Musical, Instrumentação e Técnicas de Arranjos Musicais, Percepção (Rítmica), Percepção (Solfejo, Ditado e Teoria Aplicada), Percepção (Teoria, Harmonia e Polifonia), Psicologia Educacional, Pedagogia Musical, Polifonia.

4º ANO (CURSO PROFISSIONAL)

Regência, Iniciação Musical, Canto Coral, Polifonia, Música Eletroacústica, Didática, Estética (Análise Musical), Arranjos e Técnicas Instrumentais, Prática Instrumental (Música de Câmera).



Referências:

Brito, Moema Renart de. Os Caminhos da Música – Cadernos de Produção Musical vols. III e IV. CLA / UNIRIO. RJ: 1987/88.

Castanheira, Jana Eiras. Do Curso Prático ao Conservatório: origens da Escola de Teatro da UNIRIO. Dissertação de mestrado. Orientação: profª Tânia Brandão. CLA / ET/ UNIRIO, 2003.

Castro, Ruy. Ela é Carioca: uma enciclopédia de Ipanema . Cia da Letras, SP: 1999.

Dias, José. Os Teatros do Rio de Janeiro do Século XVIII ao século XX – Inventário, Análise e Trajetórias. Tese de Doutorado – USP. SP: 1999.

Ensaio / Teatro - Praia do Flamengo 132. Revista, exemplar de nº 3, coordenação de Yan Michalski. Ilha Livraria Editora - Edições Muro. RJ: 1980

Merhy, Silvio Augusto. Harmonia de Teclado – Projeto do Manual de Ensino. Relatório de pesquisa. IVL / UNIRIO. RJ: 2004.

Moura, Roberto Murcia. Praça Onze. Coleção "Cantos do Rio". Editora Relume Dumarã: Prefeitura, RJ: 1999.


Depoimentos por e-mail:

Antonio Guerreiro de F. Junior
Ermelinda P. Zanini
Regina Márcia S. Santos
Roberto Gnattali (e revisão de texto)
Tânia Brandão



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