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Entrevista com o compositor
e multi-instrumentista
Gaudencio Thiago de Mello


Por Virgínia Aguiar
10 de junho de 2010





Virgínia Aguiar    

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V.A. – Entre muitos álbuns autorais e participações em trabalhos de outros músicos, você tem um grande número de gravações. De onde vem essa enorme disposição para criar novas melodias? A criatividade é amazônica?

T.M. – A TV Nacional de Brasilia fez-me a mesma pergunta. Digo-lhe, então o mesmo, que é a própria Vida e seus vários e distintos caminhos que nos levam a SENTIR algo dentro da gente e, como resultado, melodias, seguidas de harmonias que procuram refletir esses sentimentos.

V.A. – E a Banda Amazon, o que representa para você?

T.M. – A banda THIAGO DE MELLO & AMAZON nasceu aos poucos. Começamos com violão solo na época da Bossa Nova, inspirado no Jobim e João Gilberto. Foi crescendo, com um duo juntamente com o compositor/violonista Luiz Henrique, já falecido. Depois virou um quarteto, no qual tinham vários músicos se revezando, como os pianistas Richard Kimball e Dom Salvador, o maestro Moacir Santos, no sax e piano, a cantora Carmem Costa e o baterista Everaldo. Mais tarde aumentou para sexteto e finalmente para uma banda de 12 membros, na qual, ao longo dos anos, participaram os brasileiros Claudio Roditi, Aloisio Aguiar, Haroldo Mauro Jr. Marcus Silva, Duduka da Fonseca, Paulo Braga, Tony Semifuza, Vanderley Pereira, Nilson Matta, Romero Lubambo, Sergio Brandão e muitos outros. Havia outros músicos, tais como Paquito d'Rivera, Diego Urcola, Paul Lieberman, Ron Grunhut, Bod Auld, Dick Oatts. Paro por aquí pois são muitos mais.

V.A. – Vi o público surpreso e alegre com o ritmo Disk Tum- Derrei quando você se apresentou no teatro do Ibeu, em Copacabana, mostrando que o batuque é algo que está ao alcance de quem busca o ritmo. Como se dá essa mágica?

T.M. – Quando muito jovem, ouvia muito os cânticos do Boi-Bumbá. Tambem, havia perto de casa, um grupo de pessoas que cantava rítmos Afro-Brasileiros - tais como o Baião, Xaxado, Batuque. Em casa, ouvia minha irmã tocar no piano as peças de Bach, Mozart, Vivaldi, Villa-Lobos, etc. Reuní todos esses rítmos e tento representá-los em composições que possam refletir essas experiencias.

V.A. – A percussão orgânica é a base de suas composições que revela também um envolvimento com a natureza. O pau de chuva, que tem origem indígena, é um desses instrumentos que produz sons especiais. Qual deles é mais significativo para você?

T.M. – Como eu estudei Arquitetura por curto tempo, antes de estudar Música, até hoje procuro seguir um ponto importante para mim: a simetria, tanto na Música, como no modo de viver. Baseado em alguns princípios dessa experiencia, comecei a inventar sons da Natureza. Tudo começou quando numa noite em que tocava com a minha banda no famoso night-club SWEET BASIL de NY, a sexta corda do meu violão quebrou quando eu interpretava o Samba de Uma Nota Só! Virei o violão para o outro lado, e continuei tocando (com a ajuda do pianista). O público vibrou. Daí, nasceu essa minha ideia de FAZER percussões, desenhadas e construidas por mim. Passei a chamá-las de PERCUSSÃO ORGÂNICA, utilizando elementos da Natureza, vindo do Amazonas, Canadá, Africa e EUA

V.A.– E o que dizer da sua virtuosidade ao violão, que deslumbrou Jacques Press, maestro e compositor americano? O piano também faz parte de sua rotina de criação?

T.M. – Aprendi os primeiros acordes com um peixeiro na cidade de Santa Marta, na Colombia, onde eu treinava o clube local Unión Magdalena, da Liga Nacional. Eu o olhava de minha janela num edifício à beira do oceano e o via assando uns peixes e tocando o violão no rítmo chamado CUMBIA! Fui procurá-lo e ele ensinou-me os primeiros acordes! Depois, vim para o Brasil e comecei a estudar com um jovem especializado na Bossa Nova. Eu usava uns livrinhos que vinham com as canções e seus acordes bem desenhados, mostrando quais os dedos a serem usados, etc. Vim novamente para NY em, 1966, onde moro até hoje, e fui estudar Música no Hunter College. Privadamente, estudei teoria com Richard Kimball, que é ate hoje o meu mentor e grande intérprete de minhas canções. Ele foi professor na Manhattan School of Music e tambem na Juilliard School of Music. Tambem tive a sorte de estudar alguns aspectos de Harmonia com o amigo e pianista Haroldo Mauro Jr..

V.A.– Nesse ano de Copa do Mundo que acontece na África do Sul, você que homenageou Mandela e tem sua passagem no futebol brasileiro como preparador físico do glorioso Botafogo, vai acompanhar os jogos? Sente saudades de preparar atletas singulares como Garrincha e Quarentinha?

T.M. – Escrevi uma canção refletindo o desejo universal pedindo a liberdade de Nelson Mandela que foi tocada pela primeira vez quando participei de um festival na St. Lawrence University, que fica na fronteira dos EUA e Canadá. O pianista Haroldo Mauro Jr., o tecladista Cliff Korman, o baterista Helio Schiavo, e outros membros de minha banda participaram desse incrivel evento. Tocamos também essa peça, chamada LET HIM FREE!, No concerto de Dezembro de 2008 na City University of New York (CUNY), com a interpretação da cantora Ithamara Koorax.
Minha passagem pelo Botafogo foi quase de dois anos. Fui substituir o Paulo Amaral, levado pelo Dr. Lidio Toledo, que fazia o seu curso em Medicina Desportiva na Universidade do Brasil, onde fui tirar meu diploma de Técnico Profissional de Futebol. Fui trabalhar como assistente do Marinho de Oliveira e como preparador físico, já que eu tinha o equivalente ao Doutorado em Ed. Física e Técnica em Futebol, registrado no então CND (Conselho Nacional de Desportes). Nosso professor na Universidade do Brasil (naquele tempo, em 1960/61 e 62 ela ficava quase em frente à sede do Botafogo, na General Severiano) foi o Ernesto Santos, figura importante na conquista da Copa de 1958 - na Suécia! O Botafogo foi bi-campeão em 61e 62! Garrincha, o venerado Nilton Santos, Zagallo, Rildo, Didí, Quarentinha, Manga, Zé Maria, Amarildo, etc. formavam uma grande equipe. Foi um privilégio trabalhar com esses talentos. Quando saí para treinar o Deportivo Cali, na Colombia, indiquei para substituir-me o colega A. Chirol, tambem diplomado da minha turma, onde estava o famoso Ondino Viera, treinador do Uruguai.

V.A. – O trabalho com seu irmão Amadeu, poeta brasileiro de sensibilidade ímpar e de atitude firme na luta contra as injustiças sociais, que você também defende. O álbum A Criação do Mundo foi uma idéia em comum?

T.M. – A ideia veio da produtora Carminha Guerra, do selo KARMIM, de Belo Horizonte. Tudo começou quando ela notou que o compositor de duas peças do CD "Coisas da Vida", que ela produziu com o violonista clássico Daniel Wolff e o clarinetista Wilfrid Berg era o "compositor Gaudencio Thiago de Mello" (Daniel Wolff é o meu arranjador para orquestras e quarteto de Cordas-já fizemos vários CDs juntos). Carminha escreveu-me perguntando se eu era parente do poeta Thiago de Mello. Disse que sim. Então ela pediu-me que perguntasse a meu irmão se ele gostaria de gravar um CD com seus poemas e usando minhas composições. Seria POESIA e MÚSICA! Meu mano aceitou a ideia e gravamos o CD no Rio de Janeiro, no estúdio do violonista Flavio Goulart, onde gravei vários de meus CDs. O jornalista Armando Nogueira, recentemente falecido, foi grande amigo nosso, principalmente de meu irmão. Ele foi convidado para ler um dos poemas no CD. O fez com grande interpretação!

V.A. – No ano passado você se apresentou na CUNY (City University of New York) na comemoração aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. O registro desse evento ficará por 10 anos no CUNY TV channel 75. Essa divulgação representou um reconhecimento do seu trabalho nos Estados Unidos e da sua posição em favor dos direitos humanos e da liberdade?

T.M. – Por várias décadas venho lutando pelos Direitos Humanos. Desde o Brasil, com o golpe de 64; no Chile, após golpe de 11 de Setembro do Pinochet; ajudando os Sandinistas contra o ditador Somoza; contra o governo militar em El Salvador, etc. Ajudei a Anistia Internacional, vindo ao Brasil para levar para NY pessoas que haviam sido torturadas pelo regime militar brasileiro. Também, trabalhei junto à UNICEF, com concertos beneficentes, etc. Não gosto de falar muito sobre estas coisas, para que não pareça estar luzindo. Meu passado fala mais alto. Os gestos e as lutas, essas sim, valem muito! Espero estar neste planeta para assistir a última mostra de nosso concerto para a Declaração Universal dos Direitos Humanos, através da CUNY TV em 2018!

Virgínia Aguiar

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