Guilherme Vergueiro

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Nascido em S.Paulo, Brasil, o pianista, compositor e arranjador Guilherme Vergueiro estudou piano clássico e teoria musical dos seis aos treze anos.
Começou sua carreira profissional como pianista, tocando música brasileira em night clubs de S.Paulo e Rio de Janeiro aos 16 anos.
Conversou com Mr.Samba em agôsto de 1995 em sua casa em Los Angeles.
MR.SAMBA: Guilherme, como tudo começou?
GUILHERME VERGUEIRO:
Nasci em uma familia de artistas. Meu pai é ator, pianista amador, radialista e jornalista, minha mãe é tambem atriz, e o pai dela, (Guilherme Fontainha), foi um mestre de piano respeitadíssimo, sempre tivemos piano em casa, e ouvíamos muita música, então quando atingi 5 anos comecei a brincar com o piano, e descobri que era capaz de tocar qualquer música que ouvia no rádio ao piano de ouvido. (somente a melodia, naquela altura).
Minha família se impressionou com aquilo e decidiram que eu deveria começar imediatamente o treinamento. E assim, embarquei nessa viagem.

MS: Porque trocou o clássico pelo popular?
GV:
Quando eu estava com uns 9 anos, tinha que ir para a cama `as 8 horas, e não tínhamos televisão em casa, e eu não tinha sono `as 8, então eu escondia embaixo do travesseiro um radinho que ganhei e ficava ouvindo programas de música popular, e comecei a me apaixonar pela música popular Brasileira, especialmente pelo Samba, Chôro e Samba Canção.
Tambem naquela época a Bossa Nova estava começando a estourar, e eu adorei aquele novidade. Ficava fascinado ouvindo como os músicos estavam tocando o Samba, especialmente o João Gilberto, e virei um tipo de um fanático, e comecei a tocar as músicas clássicas que estava praticando em rítimo de Samba, e meu avô achava aquilo muito engraçado, e nunca reprimiu aquilo, então comecei cada vez mais a tentar tocar sambas ao piano.

MS:Como assim, "tentar"?
GV:
Tocar Samba ao piano não é uma coisa fácil. É muito complexo.
Lida-se com uma característica rítmica muito forte, harmonias que andam o tempo todo e tem que se tocar a melodia tambem, é claro.
Voce tem que coordenar tudo direitinho, para que soe legal, e quando não soa legal, fica horrível. Tem que ter muita independência.
Cada dedo tem uma missão diferente. Estudar Bach ajuda muito a tocar um bom samba.

MS: Qual a diferença entre Samba e Bossa Nova?
GV:
Nenhuma. Bossa Nova não é um rítmo. Bossa Nova, como o próprio têrmo indica, foi um têrmo utilizado para se identificar uma nova maneira que estava sendo criada de se tocar o Samba. Pode se dizer que Bossa Nova é um Samba "cool.".

MS: Qual a conexão entre a Música Brasileira e o Jazz?
GV:
Como o jazz, a Música Brasileira é um tipo de música muito aberta a improvisações. Como o Jazz, o chôro e o samba tiveram suas origens na Africa. A música brasileira é mais sofisticada do que o blues, por exemplo, acho que talvez pelas influências europeias. O jazz tambem têve influências europeias.
Diferente do blues, que originou o Jazz, o samba, o chôro, e outras formas musicais Brasileiras são mais ricas harmonicamente e melodicamente, e o rítmo é mais complexo tambem, então a improvisação e a Africa são as grandes conexões entre estas duas formas maravilhosas de expressão musical.

MS: Em seus concertos, mesmo que você toque somente músicas escritas por tradicionais compositores Brasileiros, os jornalistas escrevem que você toca Jazz. Porquê?
GV:
Isso na minha opinião é um pouquinho de mal entendido, e sem querer ofender ninguem um pouco de ignorância tambem. Jornalistas tem a tendência de rotular as coisas, então estabeleceram que qualquer música popular que não tenha um cantor na frente é Jazz. Até mesmo fora do Brasil atualmente quando se toca música Brasileira sem cantor, é rotulada de "Brazilian Jazz". Eu acho que qualquer um pode diferenciar a música Brasileira do Jazz, mesmo na parte da improvisação. O vocabulário é diferente. Em música Brasileira não se usa "blue notes".
Hoje, na America os músicos aprendem a tocar Jazz em escolas. Existem centenas de métodos de improvisação, estudos sôbre os estilos dos grandes artistas do Jazz, entã está muito difícil de se ouvir atualmente um músico americano original. Todos soam igual, tocam escalas, fórmulas, e muitos músicos "Brasileiros" frequentaram, ou frequentam estas mesmas escolas na America, e tocam estas mesmas escalas e fórmulas, então está difícil tambem se ouvir um músico Brasileiro original
Então com essa massificação musical, todo mundo está confuso, ninguem sabe mais o que está ouvindo, se é Jazz, Brazilian Jazz, Samba, fusion, jazz rock, Brazilian rock, mas acho que qualquer um pode reconhecer um artista original quando se depara com um.

MS: Está sugerindo que se fechem as escolas?
GV:
(risadas) Pelo contrário. Acho que os métodos que estão sendo aplicados é que estão errados. Acho que os professores enlouqueceram analizando os estilos dos grandes artistas, e desenvolveram um grande complexo de inferioridade e passam isso aos alunos. Ficam insistindo em tentar soar igual ao Coltrande, Parker, Shorter, Evans, Peterson, Tyner, e assim por diante e se esqueceram do verdadeiro significado e tarefa do ensino da música. Não se aprende mú em "escolas". Não se adquire talento em escolas. Mú:sica e talento, ou você nasce com isso ou não. Em escolas, ou voce desenvolve a música que você traz dentro de você e seu talento, ou você mata as duas coisas, ou estabelece limites.
Acho que as escolas de música deveriam ser muito mais cuidadosas com quem contratam para ensinar. Você pode se deparar com professores que tem complexo de inferioridade (ou de superioridade). Um verdadeiro mestre sabe como lidar com talento. Sabe como lidar com diferentes personalidades. Sabe psicologia. As pessoas são diferentes umas das outras, então tem que se ter maneiras diferentes de se falar com cada um. Se você nasceu com música e talento dentro de si, você precisa de um Mestre que saiba facilitar as coisas para você, faça você entender e explorar seu talento e sua música.
Uma pessoa pode matar o que você traz dentro de si. O verdadeiro Mestre descobre a maneira mais facil da criança se expressar atravez da música. Respeita o que a criança traz dentro de si, e faz a crianç entender que ela já tem tudo o que necessita para se expressar musicalmente dentro de si, e a ajuda criar os mecanismos de botar para fora. Tem a ver com liberdade. Se você impõe a uma pessoa muitos métodos, escalas, fórmulas, etc. você mata o interior desta pessoa. Ela nunca vai conseguir novamente ouvir a música que tem dentro de si, que ela ouvia antes de estudar aqueles métodos. Acredito que as pessoas tem seus proprios métodos, escalas e fórmulas dentro de si. Isso é o que faz da música uma arte maravilhosa.
Música n˜o é matemática. Improvisação é composição. A diferença é que quando se está improvisando, está se fazendo composi&ccedel;ões instantâneas. Esta é a beleza do Samba, do Jazz e de outras formas de expressão musical.music. Sã êsses momentos em que está se fazendo composições instantâneas. Você pode tocar a mesma música por 20 anos ou mais, e cada vez vai ser diferente.Como o amor. Se você começa a aplicar métodos de improvisação, escalas, fórmulas você não está improvisando, está sendo burro. E enganando a si, e ao público. Então acho que não tem nada errado com escolas, o que está errado são os métodos por elas aplicados, e com alguns professores tambem.

MS: E sôbre influências?
GV:
Influências todo mundo tem. Acho que você se influencia por tudo que gosta. Mas isso não significa que você não possa ter sua própria personalidade ou estilo.Influência não é imitação. Imitação é ruim. Quando alguem ouve algo que gosta, e corre para o instrumento para tentar fazer igual, isso é mal. Vai acabar matando sua personalidade. Esta pessoa nunca vai ser original. O que você ouve e gosta, fica registrado em seu coração. É uma coisa positiva, então `as vêzes quando você está tocando, algumas daquelas coisas aparecem, como um comentário, ou algo assim, mas não como o corpo, do seu estilo. Se torna algo incorporado ao seu estilo.
Acho que todo mundo tem muitas influências, porque todo mundo gosta de um monte de coisas, mas devemos gostar da gente mesmo em primeiro lugar, para podermos ser influenciados por muitas coisas mas de uma maneira positiva.

MS: Quais são as suas influências?
GV:
Bem, eu sou pianista, compositor e arranjador, então em cada categoria eu tenho algumas influências. Quando eu estava crescendo no Brasil, a febre dos trios de Bossa Nova era grande, e eu adorava ouvi-los e assisti-los. Tenorio Junior, João Donato e Luiz Carlos Vinhas eram meus favoritos. A partir de 68 êles desapareceram, por causa da ditadura militar. Naquele tempo no Brasil todo mundo que tocava Bossa Nova foi considerado comunista, subversivo, ou algo assim, pelo novo regime, entâo muita gente desapareceu do cenário. Muitos foram viver em outros países, e alguns simplesmente desapareceram. As gravadoras pararam de produzir música instrumental completamente.
Para dar um exemplo, a primeira vez que tivemos oportunidade de ver o grande Antonio Carlos Jobim tocar ao vivo no Brasil, foi em 82 ou 83, não me lembro bem, e antes disso para ouvir sua música tinhamos que importar seus discos. Até então, quase ninguem da nova geração sabia quem ele era. Podia se perguntar nas ruas sôbre Jobim, e ninguem conhecia seu nome. Então a partir dêste fenômeno, eu comecei a ouvir Jazz. Era maravilhos para mim imaginar que existia um lugar no planêta, onde os músicos eram respeitados. Me impressionava a quantidade de discos de Jazz que eram produzidos e a variedade de instrumentistas que tinham seus próprios discos para divulgar sua música. Os que mais me impressionaram por seus estilos foram Errol Garner e Thelonious Monk, e mais tarde McCoy Tyner, mas eu tambem adorava ouvir pianistas como Red Garland e Andrew Hill. Gostava muito tambem de ouvir Horace Silver e Nat Cole.
Como compositor, acho que sou influenciado por todos os velhos compositores Brasileiros, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Sinhô, Pixinguinha e muitos outros, e naturalmente acho que todos os compositores de minha geração trazem um pouquinho de Jobim tambem dentro de si, e os clássicos Brasileiros, como Ernesto Nazareth e Villa Lobos, e como arranjador, fiquei completamente hipnotizado quando ouvi pela primeira vez o Maestro Moacyr Santos. Êle é demais, o melhor, e eu adoro ouvir seus discos até hoje. Tambem gostava de ouvir as velhas orquestras, do Severino Araujo e do Maestro Cipó, principalmente.
No período obscuro do militarismo no Brasil, os bons Brasileiros desapareceram, e me impressionou muito tambem quando ouvi pela primeira vez o Gil Evans, e comecei a ouvir e gostar tambem do Ernie Wilkins, Neal Hefti e tambem o Johnny Mandel, Marty Paich, Oliver Nelson, Claus Ogerman e outros deste tipo. Mas sempre tive minhas próprias idéias sôbre música, e nunca tentei soar como algum outro, sempre tentei aprender com todos, sempre fiquei procurando materializar as músicas e sons e timbres que eu ouvia dentro de mim mesmo, e as vezes eu achava essas coisas ouvindo outros artistas, então acho que é assim que a gente se influencia.

MS: Aonde você tocava no início de sua carreira?
GV:
Comecei a trabalhar no pior período da história Brasileira. Existia muita repressão, era polícia para tudo quanto é lado, dedos duros, informantes, muita gente sendo prêsa simplesmente por suas idéias ou crenças, a situação era horrorosa, muito difícil de se descrever em palavras, mas conheci grandes artistas, que não tiveram chance de sair do país, e estavam se virando tocando em pequenos inferninhos, puteiros, etc.. e êles começaram a me ajudar, quero dizer, eu precisava tocar para aprender a tocar, eu não tinha nenhuma experiência, realmente não sabia tocar bem, mas todos os grandes músicos tinham desaparecido, saído do país, ou algo assim, então os que ficaram achavam que eu apesar da falta de experiência tinha talento, então tiveram que se virar comigo mesmo, ter paciência comigo. Aprendi muito com êles, e acho que foi quando realmente aprendi a tocar direito.
Toquei com o Edison Machado, o maior baterista Brasileiro de todos os tempos, com o legendário Agostinho dos Santos, com a Leny Andrade, e `as vezes com meus próprios trios, ou quartetos, e fui levando até me mandar para Nova Yorque.

MS:Porque foi para lá?
GV:
Por mêdo. Fui prêso uma noite no Rio pela polícia da Aeronáutica e êles tiraram minha fotografia, anotaram meu nome, mas me soltaram no dia seguinte por que eu me fiz meio de bobo, e consegui convencê-los de que eu estava naquele local de bobeira. (Éramos uns 12 artistas, e eu aleguei que tinha acabado de chegar de São Paulo, enfim, me safei por um triz). Mas fiquei com muito mêdo, pois sabia que se aquilo acontecesse de nôvo, êles iriam me bater, talvez até me matar (naquele tempo a tortura estava muito em moda, êles te torturavam para saber o nome de seus amigos, de artistas que êles achavam que eram comunistas ou subversivos, tenho muitos amigos que passarma por isso) e comecei a ficar muito deprimido com tudo isso, e sabia que se ficasse no Brasil não chegaria a lugar nenhum com minha música e meus ideais, então com a ajuda de um amigo (Peter Wooley) que me deixou vender um piano Fender que tinha me emprestado (1000 dolares) e de minha mãe que me deu o ticket fui para Nova Yorque começar nova vida. Isso foi em janeiro de1975.

MS: E como é que foi lá?
GV:
Nos primeiros mêses eu ficava perambulando pela cidade e pelos Jazz Clubs. Eu não conhecia ninguem e não sabia falar inglês, então não tinha muita coisa que eu pudesse fazer. Eu estava principalmente curtindo Liberdade. Dali a pouco encontrei alguns músicos Brasileiros que estavam morando por lá e comecei a trabalhar um pouquinho.
Mais tarde conheci o baixista Walter Booker, e formamos junto um grupo, Love, Carnival & Dreams, tocando minhas composições e arranjos, e tocávamos em jazz night clubs, comecei a conhecer um monte de grandes artistas de jazz, e me sentir mais a vontade. Aí comecei a trabalhar como diretor artistico de um night club e fiquei naquele trabalho por 2 anos e meio tocando 6 noites por semana. Em Dezembro de 1979 decidi voltar ao Brasil.

MS: Porquê?
GV:
É muito difícil ficar longe de suas raízes, especialmente se você é Brasileiro. O país é lindo, as pessoas carinhosas, e a cultura muito forte. Eu estava ficando completamente paranoico, sentia que tinha que voltar e realizar meu trabalho lá, eu estava começando a ter idéias de fazer discos independentes, e eu achava que tinha que estar lá, para as pessoas de lá, que estavam sofrendo tanto com a repressão, sei lá, eu achei que deveria estar lá.

MS:E o que você fez lá?
GV:
Lancei meu primeiro disco, "Naturalmente", e comecei a tocar por lá. Lancei meu segundo, "So por amor", e continuei tocando por lá. Aí fui para a Dinamarca (um país maravilhoso) convidado para dar um curso sôbre Musica Brasileira, e fiz um monte de concertos por lá, e gravei meu terceiro disco, "Live in Copenhagen", fui `a França e `a Itália, `a Espanha, entre 85 e 89 fiz uma porção de projetos diferentes, e comecei a me entregar mais profundamente ao Samba, e me envolvi com a Mangueira. Aí vim para a America com o grande sambista João Nogueira para algumas apresentações e decidi ficar aqui de novo, e aqui estou, mas desta vez indo e vindo ao Brasil o máximo possivel, para tocar, e para projetos ligados `a Mangueira.

MS:E agora, quais os seus planos?
GV:
Atualmente estou muito animado com a minha carreira. Tenho uns 5 ou 6 projetos em andamento, formei uma orquestra de Samba aqui em Los Angeles com músicos americanos de sôpro fantásticos e cozinha brasileira, estou tratando de conseguir uma tour para essa orquestra, (é bastante original e "heavy";), estou procurando produtores para fazer um documentário sôbre a História da Mangueira, estou lançando um CD no Brasil, (gravações em trio, com Robertinho Silva `a bateria e Ron Carter ao contrabaixo) depois de 8 anos sem gravar, e tambem estou muito animado com êsse negócio de Internet, acho que é uma grande forma que temos agora de nos aproximarmos das pessoas de todas as partes do mundo que gostam do que fazemos.
Estou procurando tambem tocar o maximo possivel fora do Brasil, para espalhar a mensagem da cultura do Samba por todo o mundo, e estou preparando um novo trabalho de piano solo e duo, com o grande Bira Show da Mangueira, e provavelmente iremos a varias escolas espalhadas pelo mundo para dar "workshops" sobre Samba.

MS: Obrigado, e boa sorte.
GV:
Obrigado.


Foto
Marcio Reis
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Preservando e propagando
a Cultura Brasileira,
incentivando e promovendo seus artistas.


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