Raul de Souza

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RAUL DE SOUZA, é sem dúvida nenhuma um dos maiores artistas que o Brasil já produziu.

Sua técnica, criatividade e estilo original de tocar seu instrumento, (trombone) o levou a mais de 50 países do mundo como representante da arte Brasileira, onde alem de encantar público e crítica foi merecedor de dezenas de prêmios e honrarias, como a de cidadão emérito da cidade de Atlanta nos Estados Unidos.

Raul conversou com Mr. Samba em novembro de 1995 no Rio de Janeiro.


Raul, como o Sr. está vendo a Música Brasileira atualmente no Brasil?
Brasileira, na forma de dizer, não estou vendo nada. Estou vendo coisas parecidas com a música da Jamaica, no idioma portugues, mas com o ritmo jamaicano. E rock. Mas o Samba, vindo depois da Bossa Nova, um samba moderno do ano 2000 . . . Porque a Bossa Nova veio, ficou alí e acabou, e não teve mais ninguem fazendo uma coisa nova, é isso que estou vendo no Brasil atualmente.

E o Sr. acha que isso se deve a quê?
Falta de apoio ao músico, ao compositor, uma margem, uma oportunidade de bons compositores aparecerem e gravarem coisas com o sentido musical do Brasil. Para poderem representar o Brasil. Do contrário, fica uma mídia explorando o ritmo estrangeiro, com vozes Brasileiras, que muitas vezes não tiveram a oportunidade, ou uma chance de trabalhar em um clube noturno, por exemplo uma gafieira, um taxi dancing, uma coisa que tinha antigamente, que dava margem e origem ao cantor, ao compositor e ao músico de tocar todo o tipo de música. Então o cara saía dalí, gravava um disco, que poucos, coitados, tiveram oportunidade de fazer isso, gravar um disco, mas a meu ver daria chance e oportunidade do cara mostrar um trabalho de origem Brasileira. Então nossa música está muito longe do que poderia ser.

Por que que o Sr. acha que o produtor e as gravadoras Brasileiras não investem e não produzem os artistas Brasileiros fazendo música Brasileira?
Eu não sei se é uma ordem Americana, ou de qualquer país do Primeiro Mundo, no sentido de combater as boas coisas dos países to Terceiro Mundo. Mas ao mesmo tempo, o que eu tenho assistido pela NET, que são uns canais novos que tem no Brasil, na música latina, o porto-riquenho, o mexicano, tem aquela música de origem deles, tanto para dança ou para show, e aparecem. Então não é ordem, é uma coisa ... pessoas que estão em lugares que não deveriam estar. Uma pessoa que tem valor, e que poderia ser um bom produtor, não está naquele lugar, e quem não tem valor está no lugar de produtor. Então êle acha que está agradando. Então ele faz o que, a coisa que ele acha que é bom para ele, e põe aquilo na televisão e na rádio, como aquilo que tem que ser para o público. Então o público aceita qualquer coisa da pior qualidade. E com isso aí, foi acabando a Música Brasileira. Está um negócio meio complicado. Quer dizer, a música Brasileira vai acabar. Vamos ter só música de qualquer parte do mundo com o nosso idioma, que é o idioma Brasileiro, não o Portugues. Mas, quer dizer, eu esperava que essa coisa mudasse um dia.

O Sr. acha que com êsse evento da Internet, onde hoje em dia todos os produtores e gravadoras independentes e mesmo os artistas estão atuando e tendo oportunidade de mostrar seus trabalhos internacionalmente, pode ajudar a mudar isso tudo?
Pode mudar. Porque já é uma grande iniciativa. Tinha mesmo que ter alguem para fazer alguma coisa em prol dêsses artistas, porque do contrário ia acabar. Mas graças a Deus tem pessoas que estão ligadas nessa coisa da Internet, que estou tomando conhecimento agora, e acredito que vai ser maravilhoso. O futuro. Quer dizer, o ano 2000 está chegando aí, acredito que a coisa vai mudar, de maneira diferente. É o que eu espero tambem.

A quantos anos o Sr. trabalha como músico profissional?
A 41 anos.

E o Sr. como um artista Brasileiro, ainda sonha?
Sonho! Porque já gravei um total de 14 discos e até agora ainda não aconteceu nada. Quer dizer, tem muita gente que gosta de curtir boa música, bons solos, boas interpretações, então apreciam o meu trabalho, mas não são a maioria. Porque a maioria não tem chance, ou oportunidade de saber, o que é um trombonista, o que é sonoridade, o que é técnica, o que é a dificuldade, do estudo ... como o tempo a pessoa tem o proprio estilo de tocar. Não é só tocar trombone. Tem que ter um estilo. A pessoa vai ouvir 10 trombonistas e vai saber quem é aquele cara. Diferenciar um do outro. Mas o que estão me oferecendo agora é uma proposta de gravar um disco de rap, com um cara falando qualquer coisa alí em portugues, e eu fazendo uns solos tocando flughelhorn, e sax alto. Mas o que eu quero é gravar um disco com cordas. Baladas, uma coisa bem escrita, melodias lindíssimas, isso para tocar para o Mundo ouvir. Mas estou vendo que êsse sonho não vai ser realizado. Da forma que está sendo a situação vai ser impossível.

E a sua sinfonia?
Só está faltando agora colocar as dinâmicas. Para mim foi uma surprêsa, uma coisa que recebi, pois não estava no meu consciente, escrever uma sinfonia. Mas consegui escrever.

E o Samba? O Sr. é famoso por ser um grande intérprete do Samba e do Chôro, foi assim que o Sr. começou sua carreira, como é que está o Samba com o Sr.?
O Samba está sempre. O Samba não para. É uma coisa que está na pulsação. Está no sangue.

E a nova geração, o pessoal de 15, 16 anos que estão querendo ser músicos Brasileiros, que palavra o Sr. daria a êles?
Tem que insistir. Muita perseverança na coisa do estudo, se aperfeiçoandotecnicamente, e forçando uma barra para terem oportunidade de montarem grupos entre êles, e tocar, porque só acompanhando cantores, êles jamais serão bons músicos. Podem se tornar bons leitores, mas jamais serão virtuosos, uma pessoa que possa se destacar dos outros, chegar e tocar uma música, interpretar direito, porque o cantor jamais vai dar chance para um músico. Então formando um quarteto, quinteto ou sexteto, vão ter chance de amanhã ou depois de estarem se sobressaindo. Eu a um mês atraz, eu dei um Master class, um workshop em Brasília para 59 trombonistas Brasileiros. Fiquei muito surpreso com o convite. Foi inaugurada nêsse dia a Associação do Trombonista Brasileiro. Eu fiz o workshop e toquei `a noite. E fiquei surpreso, depois de ver êles tocando todos juntos em uma igreja, regidos por um Mestre do Trombone lá de Washington. Foi muito bonito. Começou com 4 trombones e terminou com 59. E essa rapaziada, a maioria dêles, começaram a estudar Trombone, por minha causa, por terem me ouvido tocar em discos que gravei, a maioria deles nos Estados Unidos. O último disco que gravei aqui no Brasil já fazem 5 anos. Muitos deles me disseram isso.

Quem foram seus ídolos, ou seus exemplos quando o Sr. era um jovem aspirante a músico profissional?
O primeiro que eu ouvi, tocando trombone de válvula, que era o meu instrumento antigamente, foi o Leonel, que acompanhava cantores, e tocava música de Carnaval, e fazia umas introduções interessantes, e um outro rapaz de São Paulo, acho que o nome dele era Salvador, tocando tambem trombone de válvula. Depois o Norato, o Nelsinho, Astor, Manuel Araújo, e outro que conheci em São Paulo em 66, o Maciel. Edson Maciel. Achei super interessante a forma dele tocar, de interpretar, um som bonito, de classe, diferente de todos êsses que eu falei antes. Moderno. Uma pessoa que já pensava muito, muito na frente, e bom amigo tambem depois.

Porque que seu nome é João, e o Sr. ficou conhecido como Raul? Como é que se deu êsse fenômeno?
Isso se deu bem antes de eu me tornar profissional. Quando eu conheci o Pixinguinha, em Bangú, o lugar onde nasci, êle me deu a dica de sair de Bangú e ir para a cidade, e procura-lo na gravadora Continental, em Copacabana. E foi bom, porque conheci o Altamiro Carrilho, conheci o regional do Canhoto, e tive oportunidade de tocar, assim, acompanhando cantores em programas de rádio, na Rádio Tupi, conheci o Sivuca nessa época, e fiz muitos programas de calouros, e foi assim que fui cair na mão do Ary Barroso, que era o programa de calouros mais complicado que existia. Não era qualquer pessoa que passava de nota 3 para nota 5, no caso. E eu tirei 3 notas 5. Então fui expulso do programa. Então a última vez que tirei nota 5 êle falou, êsse tal de João José para você não cai bem. José, trombonista não cai bem. Vamos trocar êsse nome para Raulito. Então trocou meu nome para Raulito. Depois mais tarde eu troquei para Raulzinho. Até hoje o pessoal mais antigo me chama de Raulzinho.

E o Ary Barroso, como era êle?
Era um cara fantástico. Um crítico. Além de ótimo compositor e pianista, era um cara engraçado. Com êle não tinha negócio esquisito. Êle esculachava logo. Ou canta bem, ou não canta bem. Se não canta bem não vai passar no programa, e nem no teste antes, então as pessoas que participavam do programa eram bons músicos e bons cantores. Não tinha mais ou menos. Era ótimo. Era uma festa.

E saindo do setor do trombone, naquela época, quem é que você gostava de ouvir, que te emocionava?
Lupcinio Rodrigues, Noel Rosa, Ary Barroso, que tinha uma orquestra com grandes músicos . . . Então era assim antigamente, veja voce, um programa de rádio, de calouros, de um ótimo compositor, pianista, e que tinha uma Orquestra . . . hoje em dia não se tem uma Orquestra! No Rio não tem uma Orquestra! Quer dizer, é uma vergonha, uma cidade como o Rio de Janeiro não ter uma Orquestra. Se tem Orquestra é Orquestra de baile, que não vem a ser assim um destaque instrumental, são músicos que se reunem, e fazem um bailezinho, a maioria é aposentado, ou reformado de alguma coisa militar, Marinha, Exército ou Corpo de Bombeiros, quer dizer um negócio meio absurdo . . . São Paulo tambem não tem Orquestra. Quer dizer, o país está nesta
fase já a muitos anos, pobre, com ótimos músicos mas sem uma direção.
É um barco sem capitão, sabe como é?

O Sr. acha que a revolução militar em 64 têve alguma influência nisso?
Eu acho que êles fizeram por onde acabar. E acabou de uma forma, que hoje quem manda aqui é o Americano. Musicalmente falando. Se não for Americano não vale nada. Inclusive roupa. Todos os dizeres nas camisetas são em ingles. Tem pessoas que usam a camiseta, por motivo de olharem uma coisa ao contrário. Porque o leigo, uma pessoa que não sabe escrever nem no próprio idioma, como é que vai entender o que o Inglês escreveu? Vai comprar, porque é uma coisa interessante. São letras ao contrário, para o leigo que não sabe ler o ingles, ou o frances, ou outro idioma qualquer, então está se tornando um país sem a própria raiz. Então é dificil. Se tivesse levado a frente como nação, como país, o Brasil hoje em dia estaria em primeiro lugar, ou empatando com o Japão. Tanto em riquezas, valores e Cultura. Êsse é o meu ver.

Qual é o futuro do Brasil no seu entender?
É um país que está sem futuro. O negócio agora é fabricar pessoas que jogam bola, e vender para o exterior. Então o futebol no Brasil, é a cultura do Brasil atualmente. O cara fêz 10 gols, já está contratado por um time da Inglaterra, Itália, França, Holanda, virou isso aí.

Quem são os "bons" da atualidade?
Como cantor, o Emilio Santiago. Um ótimo cantor. Como músicos, o Bidinho do trumpete, um excelente músico, o Proveta, um ótimo clarinetista e compositor, o Gil do trumpete, o Alaor, trumpetista de São Paulo . . .

E o que êles estão fazendo?
Acompanhando cantores. Faz uma introdução, um solinho no meio, e o resumo é êsse. Então o cara não pode ter uma evolução musical, não criam um prórpio estilo, por falta de oportunidade de montar um grupo e tocar. Acho que êles tinham que se juntar e fazer um tipo de revolução musical no país, se organizando, e formando associações como a Associação dos Trombonistas, reorganizar o Sindicato, porque hoje músico nenhum recebe nada de direitos autorais, ou de execução, eu nunca recebi nada, não se tem seguro de saúde, e a aposentadoria deve estar em torno de uns 100 reais por mês. É uma vergonha.

E o Sr., está pensando em se aposentar?
Eu? De jeito nenhum. Eu estou aí, estudando feito um louco, escrevendo meus arranginhos, e pretendo viajar muito tocando e dando workshps e master classes pelo mundo afora. Europa, Estados Unidos, Japão . . .

Obrigado, Raul, e espero que o Sr. consiga realizar os seus sonhos.
Eu é que agradeço.


Foto
Marcio Reis
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